É a saúde, estúpido!

Em São Paulo, o bordão 'é a economia, estúpido', criado por um assessor do então candidato Bill Clinton em 1992, precisa ser adaptado ao principal problema da cidade

LOURIVAL SANTANNA, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h13

A noite havia caído sobre Itaim Paulista, no extremo leste de São Paulo, e o carro com o logotipo do Estado já ia dando meia-volta numa rua escura na parte mais alta do bairro, quando José Vieira gritou: "Vocês são do jornal? Tenho uma história para contar." O mecânico de máquinas desempregado, de 60 anos, sentou no banco de trás e foi orientando o motorista. O carro parou em frente a uma porta de ferro, com a pichação: "Favela do Boi". Ali funcionava o bar de José Vieira até 1997, quando ele ignorou a ordem do PCC de fechar o comércio pela morte de um rapaz. A pichação foi a senha de que ele seria morto, diz Vieira, que nunca mais abriu o bar.

Mas a história do mecânico, que conta ter sido demitido em 2004 depois de um acidente de trabalho, não é sobre segurança. Vieira afirma ter recorrido ao posto de saúde do bairro para uma cirurgia de hérnia, mas lhe disseram que não havia vagas. "Quando fui à subprefeitura e disse que ia procurar um órgão de imprensa, imediatamente a vaga surgiu", diz Vieira, membro do Conselho Gestor de Saúde da Zona Leste.

Dos 52 eleitores ouvidos pelo Estado em 7 bairros de São Paulo, 23 apontaram a saúde como o principal problema que o futuro prefeito deve atacar. A segurança ficou em segundo lugar, com 16 menções e a educação em terceiro, com 13. A soma das menções é maior que o número de entrevistados porque alguns colocaram mais de um problema como prioridade.

"A saúde está péssima", avalia Gordana Bilandzic de Morais, de 64 anos, aposentada como funcionária administrativa do Iamspe, que presta assistência médica aos servidores estaduais. Ela diz que na sua região na Capela do Socorro, extremo sul da cidade, só há um posto de saúde e deixa muito a desejar: "Às vezes não tem remédio nem médico." Gordana conta que o AMA (rede de ambulatórios) mais próximo fica a meia hora. "Há dois anos minha nora precisava fazer um ultrassom. Ela está aguardando."

"Eu fui uma vez atendida por um médico tão animal que eu disse que ia falar com a assistente social e ele disse: 'A senhora pode falar até com o papa'", recorda sua vizinha Luiza Tessi, de 69 anos. "A minha filha precisa fazer uma ressonância há dois anos e pouco. Ligaram faz um mês para ela aguardar."

"Vai no postinho aqui de Pirituba", sugere Lucilei Martowski, de 48 anos, que trabalha com bordados e mora nesse bairro da zona norte. "Tem até balde para goteira." Ela conta que foi ao posto de saúde no dia 6 com a guia de um médico do Estado. "Marcaram consulta para o fim do mês só para trocar a guia do Estado pela da Prefeitura." Como muitos usuários do SUS, Lucilei se queixa de que o hospital de seu bairro só atende emergências, os outros pacientes são "empurrados" para o AMA e às vezes é preciso percorrer longas distâncias para passar com um especialista.

O Jardim São Luís, na zona sul, é servido pelo Hospital do Campo Limpo. Mas vários moradores explicaram que, para ser bem atendido lá, é preciso "conhecer alguém". "Muita gente chega cedo, sai, desiste", observa Ricardo Oliveira, de 27 anos, que trabalha em um estacionamento perto do hospital. Ele lembra que seu irmão ficou internado lá e foi bem atendido porque conhecia funcionários do hospital. "Meu vizinho quebrou o braço, a única coisa que fizeram foi colocar uma tipoia e mandar embora. Não engessaram, não fizeram nada. Ele foi ser operado no Pirajuçara. É SUS também, mas, como ele tinha conhecimento lá..." A dona de casa Rosa Maria Maciel, de 61 anos, conta que sua filha precisava fazer uma cirurgia de cisto há dois meses. "Foi difícil operar de graça", diz ela. "Foi uma prima que trabalha na saúde que 'agitou'."

Mesmo eleitores que têm plano privado de saúde se preocupam com o problema. "Não usamos o SUS mas gostaríamos que melhorasse", dizem a psicóloga Márcia Maranhão, de 54 anos, e o contador Theodoro Versolatto, de 60 anos, que moram em Moema, bairro de classe média da zona sul considerado reduto tucano. "A gente vê na televisão os corredores. O sistema de saúde está falido."

Mesmo o apreço com o desempenho do candidato José Serra como ministro da Saúde (1998-2002) pode parecer neutralizado pelos problemas do setor na cidade, administrada por ele entre 2005 e 2006 e desde então por seu vice, Gilberto Kassab, reeleito em 2008. "Gostei muito do Serra pelo que fez na área da saúde, como por exemplo os medicamentos genéricos", diz a dentista Claudia Rodrigues, 46 anos, de Moema. "Desanimei porque deu uma parada, não progrediu. Devia fazer mais coisas pela saúde, como melhorar o atendimento para pessoas mais pobres."

Segurança. A maioria dos eleitores ouvidos não leva em conta o fato de que a segurança pública é responsabilidade do governo estadual. Tanto nas áreas mais pobres quanto nas de classe média, eles se queixam da insegurança e pedem policiamento. Alguns atribuem o aumento da criminalidade à dispersão dos traficantes e viciados da cracolândia, no centro da cidade - essa sim, uma ação do prefeito.

O único elogio à educação foi endereçado a um CEU, a rede de escolas criada pela ex-prefeita Marta Suplicy (2000-2004). Isso poderia ajudar o candidato Fernando Haddad, que além de ter sido ministro da Educação (2005-2012) é do mesmo partido de Marta. Mas o ganho não parece automático.

"Educação, para mim, é tudo", disse Maria Alcionada de Brito, de 38 anos, promotora de eventos do Jardim São Luís, e mãe de uma garota de 13 anos, que cursa o sétimo ano no CEU Casa Blanca. "O ensino está ótimo", elogiou Maria. "O CEU Casa Blanca é tudo de bom. Quem fez foi a Marta. Gostei da administração dela." Maria, no entanto, votou em Kassab, que disputou com Marta em 2008 e deu continuidade aos CEUs. "Kassab é bom, não tenho nada que falar." Ela votou em Serra para presidente em 2010, mas ainda não escolheu candidato este ano. "Ainda vou pensar se voto nele."

Fernando Borges, de 42 anos, de Moema, dono de uma distribuidora de combustíveis, votou no PT nas últimas eleições para presidente, governador e prefeito. Mas não repetirá a legenda este ano. "Esse moço, Fernando Haddad, não tem nenhuma experiência eleitoral", critica ele. "Na passagem dele pelo Ministério da Educação, ele não comprou as brigas principais. Tanto que temos uma greve dos professores das universidades federais que já chega a mais de 80 dias. Faltam recursos para a educação e ele não conseguiu fazer esse debate no governo."

Não vai ser uma eleição simples. Mas em São Paulo, nada é.

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