Werther | ESTADÃO CONTEÚDO
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Doria se apoia em Alckmin e no mote 'gestor'

Tucano vira candidato do PSDB pelas mãos do governador e explora desgaste da classe política

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2016 | 23h10

Na manhã de sexta-feira, 30, penúltimo dia do primeiro turno da disputa pela prefeitura de São Paulo, um integrante da coordenação de campanha de João Doria enfileirou dezenas de folhas de papel em cima do balcão onde está a recepção do comitê do tucano, localizado em uma casa espaçosa de dois andares na Avenida Europa.

Cada um deles tinha um endereço que representava uma região da cidade e estava preenchido com uma série de itens. Ao lado do nome de uma rua em Cidade Tiradentes, por exemplo, lia-se "corpo a corpo com 40 pessoas. Bandeiras".

Já no papel reservado ao Capão Redondo constava a seguinte inscrição digitada: "100 carros. Bandeiras. Adesivaço". O correligionário responsável pelos documentos usava o material como referência enquanto ligava para líderes do PSDB e vereadores espalhados pela capital.

Da Brasilândia, no extremo norte da capital, a Marsilac, no extremo sul, passando pela Praça Panamericana, em Pinheiros, não houve uma região de São Paulo que tenha ficado descoberta pela equipe de mobilização e logística do empresário que estreou este ano na política e lidera todas as pesquisas de intenção de voto.

Se fossem necessárias três palavras para resumir a campanha de João Doria elas seriam organização, disciplina e dinheiro. Afilhado político do governador Geraldo Alckmin, o candidato do PSDB foi o que mais arrecadou e é também o que chega à reta final do primeiro turno com a maior dívida de campanha. Foram R$ 6,9 milhões de receita para um total de despesas contratadas que já ultrapassa os R$ 13 milhões.

Isso tiraria o sono de tesoureiros de outras campanhas, mas não chega a ser um problema para Doria. Ele é o principal doador de sua própria campanha, com R$ 2,9 milhões (46,8%) de recursos próprios aportados até agora. O PSDB repassou R$ 1,5 milhão. A maior doação individual, excetuando a do próprio candidato, é a de Renato Feder, que doou R$ 120 mil (1,9%).

Dono de um patrimônio de R$ 180 milhões, ele já avisou aos fornecedores que vai pagar do próprio bolso se as doações não cobrirem a despesa total. O próprio Doria estabeleceu um teto de R$20 milhões, mas hoje seus assessores falam em R$ 15 milhões.

Não foi apenas o dinheiro que fez o estreante começar na ponta de baixo da tabela e chegar como favorito no dia da votação. O engajamento Alckmin, que acumula mais de década no poder em São Paulo, não encontra precedentes na bem sucedida história do PSDB no Estado.

Primeiro, ele escalou seus melhores operadores políticos para atropelar nas prévias o vereador Andrea Matarazzo, o favorito da "república de Higienópolis", grupo que reúne tucanos como Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Alberto Goldman e Aloysio Nunes Ferreira.

Em seguida, atuou diretamente para reunir no palanque de Doria uma inédita coligação de 13 partidos, que lhe garantiram o maior tempo de TV.

Sempre de maneira discreta, o governador também franqueou ao aliado sua influência política entre lideranças religiosas, sindicalistas e representantes de movimentos sociais que são afinados com o Palácio dos Bandeirantes.

Com dinheiro em caixa e retaguarda política, Doria montou uma estrutura própria, chamada Casa do Vereador, para atender os 498 candidatos das 13 siglas coligadas.

A eles foram oferecidos uma pacote que inclui assessoria jurídica, de imprensa, material de campanha e apoio institucional. A estratégia agressiva do empresário chamou atenção do Ministério Público Estadual, que passou a acompanhar seus passos.

Nomeado pela Procuradoria Regional Eleitoral para o caso, o promotor José Carlos Bonilha não deu trégua e representou a campanha diversas vezes e por motivos variados.

Decisão. O MP acionou a campanha por um jantar que teria sido pago por pessoas jurídicas, uso de cavaletes nas prévias, uso de um slogan que foi usado por uma secretaria de governo em 2011, nomeações de secretários em troca de apoio político, visitas a hospitais.

Diante da ofensiva, Doria decidiu, no início de agosto, ter uma conversa olho com olho com o promotor. “Fiz uma visita de cortesia. Fui sozinho. Foi um encontro afável e transparente”, conta o empresário.

No dia 26, porém, o Ministério Público protocolou uma ação pedindo a cassação da chapa do PSDB por abuso de poder econômico. Os advogados do tucano dizem que as acusações “são frágeis e carecem dos mínimos elementos probatórios”. A decisão sairá no 2.° turno.

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