Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Doria acusa França de usar estrutura do governo na campanha

Equipe do tucano obteve, "por engano", e-mail oficial trocado por funcionárias do Palácio com críticas negativas ao programa de governo do ex-prefeito

Fabio Leite, O Estado de S. Paulo

21 de agosto de 2018 | 17h25

Atualizado às 19h07

SÃO PAULO - A campanha do ex-prefeito João Doria (PSDB) ao governo de São Paulo acusou nesta terça-feira, 21, o governador Márcio França (PSB) de usar a estrutura e funcionários do Estado para municiá-lo com informações negativas contra o tucano na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes. 

A equipe de Doria afirma ter obtido "por engano" uma troca de e-mails da Subsecretaria de Ações Estratégicas do governo França no qual a assessora Gabriela Haddad faz uma breve análise negativa sobre o capítulo de Direitos Humanos do programa de governo da candidatura tucana.

Com o título "Pobreza - Documento JD", a mensagem foi enviada por Gabriela através do e-mail oficial do governo às 17h27 da última quinta-feira, 16, horas antes do primeiro debate entre os candidatos a governador promovido pela TV Bandeirantes. Na ocasião, França não indagou Doria sobre assuntos relacionados a Direitos Humanos.

"O candidato não apresenta propostas para o atendimento das demandas sociais da população pobre do Estado, nem para garantia de direitos e acesso à cidadania das minorias", diz trecho do e-mail enviado por Gabriela à coordenadora da subsecretaria, Vivian Satiro.

Por engano, segundo advogados de Doria, a mensagem também foi enviada a uma funcionária da campanha tucana chamada Vivian, que trabalhava no governo paulista até junho deste ano. Para a campanha de Doria, o e-mail comprova "o uso da máquina" pelo governador Márcio França para fins eleitorais.

Nesta terça-feira, 21, os advogados da campanha e o candidato a vice na chapa de Doria, Rodrigo Garcia (DEM), convocaram uma coletiva de imprensa para denunciar o caso e anunciar que vão mover uma representação no Ministério Público de São Paulo para investigar França e as duas funcionárias por improbidade administrativa e outra ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) por prática de conduta vedada na campanha.

Os advogados tucanos devem pedir ainda à Justiça Eleitoral a quebra do sigilo dos e-mails de funcionários do Palácio dos Bandeirantes e uma perícia nos computadores para verificar se há mais casos de servidores usando a estrutura do governo durante o horário de trabalho para tratar de assuntos relacionados à camanha eleitoral.

"Essa é mais uma denúncia extramente grave de uso da máquina pública para campanha eleitoral", disse Rodrigo Garcia (DEM), que também é coordenador geral da campanha de Doria. "O e-mail é a ponta de um iceberg, reproduz de maneira simplista o que está por trás, funcionário público atuando em serviço de campanha eleitoral", completou Garcia. 

Embora as funcionárias envolvidas sejam subordinadas à Secretaria de Governo, comandada pelo tucano Saulo de Castro, aliado histórico do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) que permaneceu na gestão Márcio França, os advogados da campanha de Doria disseram não ter nenhum indício de envolvimento dele no caso. 

"Não há nenhum elemento contra ele, mas se aparecer temos determinação para agir contra quem estiver atuando para desequilibrar a disputa eleitoral", disse o advogado Flávio Henrique Costa Pereira. Segundo ele, França faz uso "sistematizado" da máquina na campanha à reeleição.

"Nós já descobrimos funcionários de duas prefeituras de aliados do governo fazendo ataques ao Doria nas redes e conseguimos duas liminares da Justiça Eleitoral contra o Márcio França para retirada de material de promoção pessoal do governador em páginas do governo", completou. 

Procurada pela reportagem, a assessoria de França encaminhou uma nota do presidente estadual do PSB e prefeito de Campinas, Jonas Donizette, na qual ele minimiza e ironiza o caso.

"Uma servidora pública, de vários anos, manda um e-mail para assessora do próprio Doria alertando que no seu plano de governo não constam propostas para soluções de pobreza e minorias. Engraçado, em vez de procurar 'arrumar' o erro de seu programa de governo (documento público), se interessa mais em saber quem 'descobriu' o erro", afirma a nota. 

"O secretário de Governo, procurador de Justiça Dr. Saulo de Castro, nomeado e de confiança do presidente do PSDB Nacional, Dr. Geraldo Alckmin, deve saber perfeitamente, porque, como tantos e tantos tucanos, não está apoiando João Doria", conclui.

Em nota, o presidente estadual do PSDB, deputado Pedro Tobias, disse que "entende que o presidente do PSB, Jonas Donizete, não tenha a compreensão da gravidade de utilizar funcionários públicos para fins partidários, uma vez que ele próprio responde a uma ação na Justiça pedindo a cassação do seu mandato sob a mesma acusação: uso da máquina pública para contratação de aliados políticos ou pessoas próximas". O caso foi denunciado pelo Ministério Público em 2017. "A Justiça em ambos os casos vai esclarecer a verdade", finaliza o tucano. 

O Estado não conseguiu contato com as servidores Gabriela Haddad e Vivian Satiro.

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