Documentos oficiais divergem sobre 'fuga' de ex-deputado

Perícia feita em carro de onde Rubens Paiva teria sido resgatado por terroristas contradiz outro relatório militar

RIO , O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 02h03

O suposto resgate de Rubens Paiva por terroristas em dois carros teria ocorrido em meio a tiroteio, às 4h de 22 de janeiro de 1971. Sem detalhes como locais por onde o preso e sua escolta teriam passado, diz o documento: "O Sr RUBEM (sic) não conseguiu identificar a casa e, ao regressarem, na pista de descida do Alto da Boa Vista, lado da Usina, o Volkswagen da equipe do DOI foi interceptado por dois outros Volks, um branco e outro verde ou azul-claro. Estes, violentamente, contornaram a frente do carro do DOI, cujos ocupantes (sic) dispararam as suas armas de fogo contra a Equipe. Esta abandonou o carro rapidamente, refugiou-se atrás de um muro e respondeu ao fogo".

O documento continua: "O Sr RUBEM fugiu pela porta da esquerda, atravessou a rua e abrigou-se atras de um poste, enquanto os elementos estranhos dispararam suas armas por trás dos seus carros sobre o carro do DOI. O carro do Destacamento incendiou-se. O Sr RUBEM correu para dentro de um dos carros que logo partiram em alta velocidade".

A papelada do Arquivo Nacional sobre o ex-deputado Rubens Paiva e sua "fuga" inclui o resultado da perícia feita no carro incendiado de onde o ex-deputado teria fugido. O documento é assinado pelos então primeiro-tenente Armando Avolio Filho, comandante do Pelotão de Investigações Criminais, do 1.º Batalhão de Polícia do Exército (Batalhão Zenóbio da Costa), pelo terceiro-sargento perito Lucio Eugênio de Andrade e pelo comandante da unidade, coronel José Ney Fernandes Antunes. Aponta 18 perfurações, "com os bordos voltados para o interior" e diz que foram encontrados no local estojos de munição calibre 45.

Essa última afirmação contradiz outra dos próprios militares. No relatório de 22 de janeiro sobre a suposta fuga, o capitão Campos afirma que no momento em que a equipe do DOI saiu do carro, durante o suposto tiroteio, "foram deixados no seu interior dois carregadores de metralhadora 9 mm Beretta". Décadas depois, já como coronel, Avolio foi acusado de tortura. Ele negou a acusação.

A documentação do Arquivo Nacional inclui a "Informação nº 571/71-S/103-CIE", produzida pela Agência Central do Centro de Informações do Exército e difundida para a Agência Central do Serviço Nacional de Informações (CIE) e para a Divisão de Segurança e Informações do Ministério da Justiça (DSI-MJ).

O documento, de 19 de março de 1971, critica a participação do líder do MDB, partido de oposição consentida ao regime militar, na reunião do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana do dia 10 anterior, que tratara do desaparecimento de Rubens Paiva.

Reunião. O CIE reclama que Horta, por dar entrevistas sobre o assunto, quebrara de sigilo do encontro que tratara do que chama de "apenas uma denúncia". Àquela altura, o desaparecimento de Paiva já mobilizava o meio político.

"Terminada a reunião, o Deputado PEDROSO HORTA, além de fazer declarações públicas criticando a forma de funcionamento do Conselho, distribuiu à imprensa cópia dessa denúncia, que, antes de quais quer diligências, tece considerações incriminatórias ao I Exército", diz o documento. / W.T.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.