André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Doação acompanha atuação parlamentar

Deputados que tentam reeleição arrecadam mais com empresas ligadas às suas áreas de trabalho no Congresso

Fabio Brandt e João Domingos, BRASÍLIA

13 de setembro de 2014 | 03h00

Os candidatos que tentam a reeleição conseguiram arrecadar mais entre empresários ligados às suas áreas de atuação parlamentar. O agronegócio é um dos melhores exemplos disso. O deputado Jerônimo Goergen (PP-RS), um dos defensores do setor, recebeu R$ 400 mil da JBS, a maior empresa de abate de gado e comércio de carne bovina do mundo. 

“Recebi os R$ 400 mil por intermédio de uma doação que foi feita ao partido e não a mim. Mas acredito que o pessoal lá tenha dito que era para destinar o dinheiro para a minha campanha porque pedi ajuda sim para a JBS e tenho uma atuação voltada para o setor”, disse Goergen. 

Ele afirmou que mesmo numa situação bem melhor do que outros, que nada receberam, calcula que sua campanha vai custar cerca de R$ 3,5 milhões. “Pelos meus cálculos, vou receber uns R$ 1,5 milhão. Vou ficar no prejuízo.” 


Presidente da Frente Parlamentar da Agricultura da Câmara, o deputado Luiz Carlos Heinze (PP-RS) recebeu R$ 100 mil da SLC Agrícola. “Conheço esse pessoal há muitos anos. E tenho certeza de que o dinheiro veio por causa do meu trabalho, reconhecido em todo o Brasil em favor do agronegócio. Prefiro receber doações assim, do setor com o qual me identifico, do que ficar aí sujeito às tentativas da corrupção. Vejo que tem gente que gastou dez vezes mais do que eu e aparece como se não tivesse recebido nada. Isso é preocupante”, disse Heinze, sem citar nomes. 

Outro que recebeu R$ 250 mil da JBS foi o deputado Nelson Meurer (PP-PR), também ligado aos ruralistas. Ele disse que não pediu dinheiro à empresa. “A doação veio do diretório nacional. Eu nem conheço esse JBS. E minha atuação está mais voltada para a agricultura familiar, que é quem sustenta esse País. O dinheiro apareceu, muito bem. Vou rejeitar? E não veio por pedido meu, mas pelo meu partido.” 

A empresa pode fazer a doação ao partido e este a encaminha aos candidatos que julgar conveniente. Nesse sentido, o fato de já ser parlamentar e ter uma atuação mais destinada a uma área no Congresso acaba por facilitar o acesso aos empresários durante o mandato e, consequentemente, aos recursos durante a campanha. 

O líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), por exemplo, recebeu R$ 900 mil da Telemont, cuja principal atividade econômica é a construção de estações e rede de telecomunicações. Cunha foi um dos principais protagonistas do debate sobre o Marco Civil da Internet, sempre ao lado das teles. Ele disse que o dinheiro foi repassado pela direção do partido e não diretamente a ele. “Não vejo nada de mais”, afirmou. 

Finanças. Ex-presidente do DEM, o deputado Rodrigo Maia (RJ) recebeu R$ 250 mil do Banco BMG. Ele é presidente da Comissão de Finanças e Tributação, que aprecia todos os projetos relativos a bancos. Rodrigo Maia disse que recebeu a doação porque é amigo da direção do BMG, banco no qual trabalhou dos 19 aos 24 anos. 

“Meu primeiro trabalho com carteira profissional assinada foi no BMG. Até hoje, 25 anos depois, peço voto a meus ex-colegas de trabalho, e ajuda a meus ex-patrões”, afirmou. Ele disse que o fato de receber ajuda do banco não tem nada a ver com sua atuação. “Tanto é que no escândalo do mensalão, em que o BMG foi investigado, não recuei um centímetro nas investigações.” 

Já o deputado Otávio Leite (PSDB-RJ) recebeu R$ 200 mil da Carvalho Hosken Engenharia. Ele costuma atuar na Comissão de Desenvolvimento Econômico, responsável, dentre outros pontos, por matérias relativas a direito comercial, societário, falimentar e econômico. “Não há nenhuma ligação. Conheço o Carvalho há anos. Ele me ajuda por achar que é importante eu estar na Câmara representando o Rio de Janeiro”, afirmou Leite.

Ligado à chamada “bancada da bola”, o deputado Vicente Cândido (PT-SP) recebeu R$ 100 mil do escritório de advocacia Marco Polo Del Nero e Vicente Cândido Associados. Marco Polo será o próximo presidente da CBF. Cândido foi procurado, mas sua assessoria alegou que ele estava fazendo campanha no interior de São Paulo e não poderia responder.

Confira abaixo algumas das arrecadações:

Eduardo Cunha (PMDB-RJ)

R$ 900 mil

Quem doou: Telemont, empresa cuja principal atividade é a construção de estações e redes de telecomunicações

Atuação parlamentar: Foi um dos protagonistas do debate sobre o Marco Civil da Internet

Jerônimo Goergen (PP-RS)

R$ 400 mil

Quem doou: Grupo JBS, gigante do ramo alimentício

Atuação parlamentar: É um dos ruralistas mais atuantes na Câmara; teve papel de destaque na discussão do Código Florestal

Rodrigo Maia (DEM-RJ)

R$ 250 mil

Quem doou: Banco BMG

Atuação parlamentar: Atua na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara, responsável por avaliar todos os projetos referentes ao sistema tributário nacional

Luiz Carlos Heinze (PP-RS)

R$ 200 mil

Quem doou: SLC Agrícola

Atuação parlamentar: É coordenador da Frente Parlamentar Agropecuária

Otávio Leite (PSDB-SP)

R$ 200 mil

Quem doou: Carvalho Hosken Engenharia

Atuação parlamentar: É responsável por avaliar projetos sobre o sistema tributário, na Comissão de Finanças e Tributação

Nelson Meurer (PP-PR) 

R$ 100 mil

Quem doou: Grupo JBS

Atuação parlamentar: Tem participação ativa nos trabalhos da Comissão de Agricultura 

Notícias relacionadas
    Tudo o que sabemos sobre:
    Eleições

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Tendências:

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.