Wilton Júnior/Estadão
Aécio chega à eleição competitivo, brigando voto a voto com Marina por uma vaga no 2º turno Wilton Júnior/Estadão

Do desânimo à chance real

Após enfrentar cenário adverso em que os próprios aliados passaram a desconfiar da possibilidade de campanha chegar ao 2º turno, Aécio muda estratégia, investe em sua terra, Minas Gerais, e volta ao jogo

Débora Bergamasco, O Estado de S. Paulo

04 de outubro de 2014 | 16h00

BRASÍLIA - Dentro do carro, em silêncio profundo, como de costume quando sente raiva, o candidato a presidente Aécio Neves (PSDB) estava com a cabeça zunindo. Já atrasado para o debate entre os presidenciáveis no SBT, no dia 1.º de setembro, avistou um congestionamento quilométrico. Um acidente com um caminhão havia bloqueado a estrada que seu veículo cruzaria. Simbólico.

A corrida contra o tempo, a angústia de se sentir paralisado e uma jamanta em seu caminho pareceu a Aécio a representação do momento político que vivia. A pouco mais de 30 dias da eleição, o tucano estava 20 pontos atrás de suas principais adversárias, Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PSB). Entretanto, em mais uma reviravolta, o tucano chega à eleição competitivo, brigando voto a voto com a candidata do PSB por uma vaga no 2.º turno.

Aquela segunda-feira de setembro ficou marcada como o pior dia de sua campanha. Aécio já estava abalado com uma pesquisa divulgada na véspera, apontando Marina com 34 pontos, empatada com Dilma, e seu nome com apenas 15. No caminho para os estúdios da TV de Silvio Santos, um assessor mostrou pelo celular a notícia que havia acabado de ser publicada pelo portal estadão.com.br. O coordenador-geral de sua campanha, o senador José Agripino Maia (DEM-RN), havia afirmado que a coligação de Aécio, Muda Brasil, deveria apoiar Marina, caso o tucano não chegasse ao 2.º turno: “Tudo contra um mal maior que é o PT”. Admitir que Aécio poderia não passar da primeira etapa da disputa foi declarado assunto proibido.

Furioso, ligou sem simpatia para Agripino, cobrando explicações. Em seguida, soube que ganhavam força na imprensa boatos de que ele desistiria da corrida presidencial para se candidatar ao governo de Minas, na tentativa de salvar o Estado desde 2003 sob domínio tucano de uma derrota para o PT.

Esqueceram de mim. A atuação no debate da TV foi considerada, de longe, sua pior. Figurou como líder dos “nanicos” e foi deixado de lado pelos adversários. Em parte, porque a polarização se deu entre Dilma e Marina. E também pelo azar no sorteio da ordem de participação de cada presidenciável. Essa falta de sorte com sorteio, aliás, acompanhou o mineiro em todos os debates. No SBT, Aécio nem sequer conseguiu falar as considerações finais que havia preparado.

Improvisou e se enrolou. Ao fim, uma multidão de jornalistas se dividiu entre a concorrente do PSB e a do PT. O tucano foi procurado por apenas quatro profissionais. Saindo de lá, Aécio foi sozinho para o hotel.

Novo plano. No dia seguinte, não deu sinal de vida durante toda a manhã. À tarde, chegou à produtora onde está instalado seu marqueteiro, Paulo Vasconcelos. Reuniu-se com a equipe e, naquele encontro, decidiram-se novos rumos: “Tenho de mostrar que não vou desistir. Vamos ter de ir com tudo para cima da Marina, colando ela no PT”. Foi convocada uma coletiva, com a presença do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), quando reforçou o seu compromisso com a disputa presidencial. Marina passou a ser diariamente associada ao PT, por ter integrado o partido por mais de 20 anos.

O deputado estadual Bruno Covas (PSDB-SP) sugeriu que o presidenciável usasse o tempo de TV das coligações tucanas nos Estados. Aécio transformou a campanha num grande serviço de call center. Ele próprio passou dias ligando para lideranças estaduais, cobrando empenho e pedindo para que eles telefonassem para todos os prefeitos de seus Estados, para tentar manter a tropa animada.

Ali, assistiu a defecções e as anotou. Em Goiânia, o presidente do PSDB local, Paulo de Jesus, afirmou ao Estado que a orientação seria apoiar Aécio, mas se ele não passasse na primeira fase do pleito, a ordem era ajudar Marina. Na Bahia, um concorrente ao cargo de deputado federal pela mesma legenda afirmou que a sugestão local era “esconder” Aécio, porque ele poderia atrapalhar na hora de pedir votos. O palanque informal para Aécio no Rio, chamado Aezão (Aécio para presidente e Luiz Fernando Pezão para governador), também sumiu do mapa.

A campanha já havia sofrido abalos no início, com a revelação de que o governo estadual mineiro investiu, durante o segundo mandato de Aécio como governador, R$ 14 milhões em um aeroporto localizado na fazenda do tio-avô do hoje candidato à Presidência no município de Cláudio. Aécio afirmou que todo o projeto foi realizado de acordo com as necessidades da região.

A arrecadação financeira da campanha sofreu impacto, embora um estrategista da cúpula garanta que não faltou dinheiro.

“Braço esquerdo” de Aécio – o tucano é canhoto –, Andrea Neves relata ao Estado que o irmão assiste a traições políticas desde a infância e, por isso, não se abala. “A gente nasceu na política por influência do nosso avô Tancredo Neves e experimentamos momentos emocionantes de lealdade, vivemos traições que até perdemos a conta”, explicou. “Houve momentos em que pessoas desacreditaram da possibilidade (de ir para o 2.º turno), a gente sabe disso. Mas o Aécio tem uma relação com essas pessoas que também não é de hoje. Acho que ele sabe o que esperar de cada uma delas”, avaliou Andrea. O ex-governador de Minas Antonio Anastasia, FHC e integrantes da campanha insistem que Aécio se manteve perseverante, mesmo quando mais ninguém acreditava.

Nerso da Capitinga. Se por um lado houve defecções, por outro pipocavam soluções mirabolantes para salvar a candidatura majoritária do PSDB. No dia 10 de setembro, Aécio desembarcou do jatinho em Goiânia para um ato político quando o candidato à reeleição no Estado, Marconi Perillo (PSDB), ofereceu ao candidato uma “excelente ideia” para virar o jogo. “Aécio, você precisa colocar mais humor na sua campanha.” E recomendou que o presidenciável colocasse o comediante que imita um matuto da roça em sua propaganda nacional. “O Nerso da Capitinga já está contratado por nós. Se quiser, a gente empresta ele para você”, ofertou Perillo. O mineiro agradeceu e não usou.

Aécio focou sua agenda sobretudo em Minas, São Paulo e na Região Sul do País. Em sua terra natal, traçou plano de emergência para sair do terceiro lugar nas intenções de voto no Estado que governou por oito anos e se livrar de um fracasso pessoal. Também passou a se empenhar mais para tentar emplacar no governo mineiro o aspirante Pimenta da Veiga e não deixar o postulante do PT vencer em seu reduto eleitoral. Pelo menos não no 1.º turno. Ao mesmo tempo, nos programas de TV e rádio, mirou no eleitor antipetista e passou a martelar que Marina representa o “PT parte 2” e que ela “é a Dilma com outra roupa”.

Anunciou como seu eventual futuro ministro da Fazenda o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, que se tornou um dos principais colaboradores intelectuais da campanha. A relação entre os dois começou em dezembro do ano passado, quando Aécio organizou uma festa dias antes do Natal em seu apartamento em Ipanema, no Rio. FHC atendeu ao pedido do mineiro e levou Arminio ao jantar para apresentá-lo ao então pré-candidato.

Ibiza no verão. As estratégias traçadas um dia depois da maior crise da campanha começavam a surtir efeito e a tendência das pesquisas se inverteram: Marina caindo, Aécio subindo, corroborando a tese do antes desacreditado Aécio Neves, que dizia em seus piores momentos que Marina representava uma “onda” e que essa onda iria “quebrar na praia”. A estratégia de Dilma de despejar toda sua artilharia em Marina sem desperdiçar munição no tucano, ajudou Aécio.

Até o dia de hoje, a campanha de Aécio está correndo contra o tempo para sustentar essa tendência de inversão. “Sabemos que esse processo de falar com o eleitor é lento”, avaliou o marqueteiro Paulo Vasconcelos. “Por isso, o ideal seria como estar em Ibiza no verão, com dias muito longos e apenas duas horas de noite”, brincou.

Domingo passado, uma semana antes da eleição, em que o clima de virada passou a predominar em sua candidatura e pairava a sensação de que faltava pouco para retomar a segunda colocação, Aécio organizou o batismo dos filhos gêmeos, Júlia e Bernardo, em São João del Rei (MG). A imprensa pôde registrar o momento em família. O evento foi uma ousadia para os padrões de Aécio, que costuma proteger com rigor seu clã de qualquer contato com a mídia.

No melhor momento de sua campanha, “porque de virada é mais gostoso”, como disse para Aécio o amigo e ex-jogador Ronaldo Fenômeno, o candidato tucano estava exultante no debate da TV Globo, na quinta-feira. No fim do programa, com as luzes já se apagando, ele arriscou uma provocação à Dilma: “Nos vemos no 2.º turno”. A presidente deu as costas.

Aécio Neves, 54 anos

Estado civil: Casado

Partido: PSDB

Coligação: PSDB, DEM, PEN, PMN, PTB, PTC, PTN, PT do B e Solidariedade

Formação: Economista

Cargos que já ocupou: Foi deputado federal por Minas Gerais de 1987 a 2003, presidiu a Câmara dos deputados em 2001 e 2002. Foi governador de Minas de 2003 a 2010 e é senador desde 2011. É presidente nacional do PSDB desde 2013.

 

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