FABIO MOTTA/ESTADÃO
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Disputa Ciro-Haddad nas eleições 2018 se acirra na Região Nordeste

Estados nordestinos, que concentram 26% do eleitorado do País, são o palco principal do embate entre petista e pedetista; briga é pelo chamado voto ‘lulista’

O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2018 | 05h00

A Região Nordeste, onde vive um em cada quatro eleitores brasileiros, é, neste momento, o principal palco da disputa entre Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes  (PDT) pelo espólio lulista e por uma vaga no segundo turno da disputa presidencial nas eleições 2018. A batalha entre o petista e o pedetista se acirrou nas mais recentes pesquisas, lideradas por Jair Bolsonaro (PSL). 

Nos Estados nordestinos, o confronto Ciro-Haddad alcança seu nível mais elevado na comparação com outras regiões. Enquanto o candidato do PT conta com a transferência de votos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – preso e condenado na Lava Jato –, a campanha de Ciro acredita que poderá frear essa transmissão. 

O principal trunfo de Ciro é o forte apoio de que desfruta no Ceará, Estado que já governou e cuja máquina é controlada por seu irmão, Cid Gomes, candidato ao Senado pelo PDT. Apesar de ser petista, o atual governador, Camilo Santana, é afilhado político dos irmãos Gomes e apoia Ciro.

O crescimento de Ciro vinha sendo impulsionado principalmente pelo desempenho no Nordeste. Mas, desde que foi oficializado como candidato do PT à Presidência, no início desta semana, Haddad alcançou índices que o deixam em empate técnico no segundo lugar com adversários.

Conforme o Ibope mais recente, divulgado nesta terça-feira, 11, 38% dos nordestinos afirmaram que votariam “com certeza” em Haddad ao ser informados de que ele tem o apoio do ex-presidente. Naquele momento, o petista tinha 13% das preferências no Nordeste, ante 18% de Ciro.

Já a pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira, 14, mostrou que Haddad cresceu de 11% para 20% no Nordeste e Ciro oscilou para baixo, de 20% para 18%.

A campanha de Ciro estabeleceu como estratégia nos Estados nordestinos poupar Lula, apresentar Haddad como o candidato paulista da presidente cassada Dilma Rousseff e atacar o PT. Com a ausência de Lula, analistas avaliam que o potencial de crescimento de Ciro no Nordeste seria hoje maior do que em outras eleições. Mesmo que não exista garantia de que conseguirá a maioria dos votos na região, o pedetista teria a seu favor o fato de ser mais conhecido pelos eleitores nordestinos. 

Interesses locais. A disputa colocou em campos opostos políticos das duas siglas que estão alinhados nas disputas estaduais. No Nordeste, PDT e PT estão juntos em Alagoas (onde estão na chapa de Renan Filho, do MDB), Ceará, (com Camilo Santana, do PT), Bahia (com Rui Costa, do PT), Maranhão, (com Flávio Dino, do PCdoB) e Paraíba (com Ricardo Coutinho, do PSB). Os arranjos locais, porém, representam obstáculos nas táticas de disputa entre Haddad e Ciro por votos nordestinos.

Na Bahia, um dos poucos Estados nordestinos onde Ciro ainda não visitou durante a campanha eleitoral deste ano, o PDT, partido dele, está na base do governador Rui Costa (PT), que tenta a reeleição. Nesse caso, Haddad é quem leva vantagem sobre Ciro, porque o governador está afinado com a estratégia nacional do PT.

Os pedetistas ocupam duas secretarias na administração estadual: Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura e Administração Penitenciária e Ressocialização. Nos materiais de campanha e na propaganda eleitoral no rádio e na TV, candidatos a deputado estadual e deputado federal do PDT baiano têm exibido a imagem de Ciro.

“Uma coisa é o Lula, outra completamente diferente é o Haddad. Não são a mesma pessoa”, disse Félix Mendonça Jr., presidente do PDT baiano.

Em Pernambuco, Maurício Rands, candidato ao governo pelo PROS – partido da base de Haddad –, declarou apoio a Ciro. O PDT está em sua aliança. 

Como principal cabo eleitoral do presidenciável no Estado, Rands tem direcionado seus discursos para o eleitorado petista com o objetivo de impedir a transferência de votos lulistas para o ex-prefeito de São Paulo. “Os valores de justiça social não são monopólio do Lula ou do seu partido. Nós e o Ciro também representamos esses valores”, disse Rands.

O Nordeste possui pouco mais de 39 milhões de eleitores, o que representa 26,6% do total no País. / DANIEL BRAMATTI, PEDRO VENCESLAU, GILBERTO AMENDOLA, MARIANNA HOLANDA, YURI SILVA e KLEBER NUNES 

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Pedro Venceslau e Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2018 | 05h00

Aliado do presidenciável Ciro Gomes (PDT), o governador do Ceará e candidato a reeleição nas eleições 2018, Camilo Santana (PT), se diz vítima de “preconceito” da cúpula do partido na distribuição das verbas do fundo eleitoral por causa de sua aliança com o adversário do petista Fernando Haddad na disputa presidencial.

“Eu questionei a direção do partido e solicitei que fosse revisto esse critério. O Ceará tem um grande colégio eleitoral. Dos governadores do PT, somos o terceiro – só perdendo para Minas Gerais e Bahia. Não acho que seja o critério correto. Estou aguardando uma posição da direção nacional”, afirmou o governador cearense ao Estado.

A tensão entre Camilo e o PT aumentou após Haddad ser oficializado candidato à Presidência no lugar do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso na Lava Jato. A campanha à reeleição do governador ignora Haddad enquanto Camilo faz campanha ao lado de Ciro. 

Nos materiais de campanha, bandeiras, adesivos e nos comerciais da TV quem aparece ao lado do governador petista é Cid Gomes, irmão de Ciro, que disputa o Senado. Quando questionado sobre em quem vai votar para presidente, Santana sorri e desconversa: “O voto é secreto”.

Em uma caminhada do governador em Fortaleza a reportagem contou 42 “porta-bandeiras” trabalhando para o petista – cada uma recebendo um salário mínimo por mês da campanha. Quatro deles disseram que não sabiam quem é Haddad. O presidenciável petista também é ignorado na TV, jingle e santinhos de Camilo.

Na semana passada, participou de uma carreata e discursou ao lado do pedetista em um grande comício em Sobral, base dos Ferreira Gomes. Fez elogios ao ex-ministro e no final chamou o pedetista para tirar um selfie no palco. 

Em outro ato político, esse em Fortaleza, Camilo disse ter uma “forte admiração” por Ciro. E concluiu: “Você estimulou nossa geração na política e representa a esperança. Estamos juntos”.

Em conversas reservadas, dirigentes petistas não escondem a irritação com Camilo. Alguns chegam a chamá-lo de “traidor”. Segundo eles, as reclamações do governador em relação aos repasses são a preparação do discurso para deixar o PT depois das eleições.

Repasses. Até esta quinta-feira, 13, quando concedeu a entrevista, Camilo havia recebido R$ 785 mil da direção nacional do PT. Nesta sexta-feira, 14, depois que o Estado questionou o partido sobre as críticas do governador, o valor subiu para R$ 900 mil. O único candidato petista a governador que recebeu menos foi Wellington Dias, candidato à reeleição no Piauí, com R$ 882 mil. Candidatos desconhecidos e com poucas chances como Miragaya do PT (DF) e Jackeline Rocha (ES) receberam R$ 1 milhão cada.

Procurada, a direção do PT não respondeu sobre os repasses. A ordem é evitar polêmicas em nome de uma eventual aliança com Ciro no segundo turno.

Márcio Macedo, um dos vice presidentes do PT, disse que as reclamações de Camilo são legítimas, mas fora de hora. “A divisão do fundo (eleitoral) foi amplamente debatida nas instâncias do PT com a participação de todos, inclusive representantes dele”, disse Macedo. / COLABOROU GABRIEL WEINER

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Reduto lulista no Maranhão, Chapadinha ganha primeiro comitê de Bolsonaro

Desde que anunciou que iria votar no candidato à Presidência, o engenheiro agrônomo Elliton Aguiar, que inaugurou escritório de campanha do PSL no município, anda batendo boca com a irmã e um primo nos almoços de família

Yan Boechat, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2018 | 05h00

CHAPADINHA (MA) - Os almoços em família não têm sido os mesmos desde que o jovem engenheiro agrônomo Elliton Aguiar anunciou que, desta vez, iria votar em Jair Bolsonaro (PSL) para presidente nas eleições 2018. A decisão, tomada de supetão após assistir ao capitão reformado participar de entrevista no Jornal Nacional, da TV Globo, abalou parte de seus familiares. “Aqui é complicado, o pessoal é muito lulista”, diz ele, que agora anda batendo boca com a irmã e um primo nos convescotes domésticos toda vez que a conversa descamba para a política.

O único a cerrar fileira com Aguiar é seu avô, dono de terras e ex-secretário de Limpeza Urbana da cidade de Chapadinha, quase na fronteira entre o Maranhão e o Piauí. “Ele sempre foi de direita, nunca votou no Lula, sempre achou que esse negócio de Bolsa Família ia estragar o povo”, afirma Aguiar, orgulhoso da tenacidade do avô diante da onda vermelha que varreu essa parte do Brasil desde que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu a rampa do Planalto pela primeira vez, em 2003.

Nesta quarta-feira, 12, ele inaugurou o primeiro e único comitê de Bolsonaro nesta parte do Maranhão. Em uma pequena sala com duas mesas, cinco cadeiras, uma geladeira e um banheiro, espalhou adesivos, botons e camisetas do presidenciável do PSL. “Eu sou voluntário, mas a estrutura aqui está sendo financiada por um grupo de empresários da cidade”, diz, ele mesmo parte da elite empresarial da pequena cidade de 70 mil habitantes.

“Eu tenho uma empresa de eventos com mais alguns amigos, fechamos um acordo com um deputado estadual, mas aqui estou de graça, porque acredito mesmo em Bolsonaro para mudar o Brasil, não aguentamos mais a corrupção e esses programas que fazem o povo não querer saber de trabalho, só de ter filhos”, diz ele, recém-formado no campus da Universidade Federal do Maranhão em Chapadinha, criado na gestão do agora candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad, quando ministro da Educação.

A sala onde está instalado o comitê foi cedida por um dos muitos empresários desse que é um importante polo econômico na divisa do Maranhão com o Piauí e vem se transformando em uma nova fronteira agrícola do Estado. “Aqui em Chapadinha, eu diria que 90% dos empresários estão com Bolsonaro”, diz Gaudêncio Gomes, o dono da pequena saleta e de um supermercado, um hotel e uma lotérica na cidade.

A exemplo de Gomes, boa parte dos eleitores que antes votavam em Lula integra a elite econômica da cidade – que deu à presidente cassada Dilma Rousseff sua maior votação proporcional no segundo turno das eleições de 2014 – e não se beneficiou de programas sociais como o Bolsa Família.

Ele decidiu criar uma espécie de propaganda subliminar em apoio a Bolsonaro, mas sem exatamente citar o nome do candidato, para não ter problemas com a Justiça. Em propriedade da família, às margens da rodovia que liga Chapadinha ao Piauí, instalou um outdoor com o lema do governo militar na década de 1970: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. “A ditadura só foi ruim para quem era ruim”, diz.

Mas há também gente das classes mais pobres, beneficiados por programas de transferência de renda que decidiram abandonar o lulismo e se bandearam para os lados de Bolsonaro. Em geral, são eleitores mais jovens e que veem no capitão reformado uma saída para os escândalos de corrupção que assolam Brasília. Marcos Gonçalvez, de 23 anos, funcionário da balsa que transporta carros e caminhões sobre o Rio Parnaíba, a divisa natural entre o Maranhão e o Piauí, vota em Bolsonaro, a despeito dos protestos de toda a família. “Desde que escolhi o Bolsonaro é assim, todo mundo me critica, até minha mulher.”

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