Discreto e calado, um novo Jader no Senado

Sem o poder que dispunha antes da renúncia e da prisão, peemedebista vai pouco ao Congresso, evita imprensa e até agora não apresentou projetos

RICARDO BRITO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2013 | 02h10

Jader Barbalho chega ao plenário do Senado e se acomoda em uma das poltronas reservadas aos parlamentares do Pará, na terceira fila, do lado oposto à tribuna de imprensa onde se aglomeram os jornalistas. Taciturno, faz acenos discretos para colegas e vota como manda sua bancada, a do PMDB.

Em seguida, deixa o plenário com a discrição que se impôs desde que retornou ao Senado, dez anos após deixar o comando da Casa e renunciar ao mandato para não ser cassado na esteira das denúncias de corrupção que o envolviam.

Nos 19 meses do atual mandato, o senador paraense, 68 anos, em nada lembra uma das principais lideranças políticas brasileiras nas décadas de 80 e 90, duas vezes governador do Pará e outras duas ministro do governo Sarney (1985-1990).

Jader também foi presidente do PMDB e do Congresso, homem forte na gestão Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e, de quebra, gozava de certa influência no mandato Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), quando apadrinhou as indicações dos presidentes da Eletronorte, Jorge Palmeira, e da Eletrobras, José Antonio Muniz. Sob Dilma Rousseff, Muniz foi rebaixado a diretor de transmissão, numa mostra de perda de influência do peemedebista.

Nada apresentado. Até o momento, Jader não apresentou nem relatou uma proposta legislativa sequer. Não fez um discurso em plenário e não integra nenhuma comissão temática do Senado. No ano passado, foi apontado pelo site Congresso em Foco como o campeão das faltas: só esteve em 69 das 126 sessões de votação. Em fevereiro, pediu para integrar a Comissão de Assuntos Econômicos, mas, após faltar a todas as 17 reuniões, acabou substituído.

Nas reuniões da bancada do PMDB, em que o partido fecha questão sobre determinados projetos, raramente aparece, segundo relato de seis senadores do partido entrevistados pelo Broadcast Político. Há quem nunca o tenha visto. "Entra mudo e sai calado", afirmou um peemedebista que só o cumprimenta protocolarmente. Tampouco fez novos amigos, segundo relato de oito senadores do PMDB e quatro de outros partidos.

"Não vou palpitar sobre a atuação dele", disse o senador Pedro Taques (PDT-MT), que integrou como procurador da República uma força-tarefa que levou Jader à prisão em fevereiro de 2002. Os dois nem sequer se cumprimentam.

Sem holofotes. O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), que não participa das reuniões da bancada, disse que o vê com frequência bem cedo, na hora de registrar presença em plenário e durante as votações. "Ele fez uma opção de não ficar sob os holofotes", opina Jarbas. Segundo pessoas próximas, Jader tem por hábito conversar com a trinca José Sarney (AP), Romero Jucá (RR) e Renan Calheiros (AL).

Romero Jucá é o único a defender a atuação de Jader. "Ele tem tido um mandato mais ligado ao Pará", justifica. Aliados dizem reservadamente que o senador está preocupado com o futuro político do seu clã - um de seus planos é fazer um dos filhos, o atual prefeito de Ananindeua, Helder Barbalho, governador do Estado em 2014. "Ele (Jader) não é um cara incendiário. É um bombeiro", completa Jucá.

Jader já gastou cerca de R$ 292,6 mil com uma empresa responsável por divulgar sua atuação parlamentar numa página da internet. Detalhe: boa parte das informações do site são colagens de reportagens do jornal da sua família, o Diário do Pará. A propósito, Jader inovou na resposta a seu único desafeto declarado na Casa, o senador tucano Mário Couto (PA). Os demais colegas receberam em seus gabinetes reportagens do Diário contra o tucano, que havia feito pronunciamentos acusando Jader de ter patrimônio oculto, fruto de desvios da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam).

Além do envio do jornal, o peemedebista mobilizou aliados na Assembleia do Pará e instalou uma CPI para investigar desvios no Departamento de Trânsito paraense que têm como alvo Mário Couto.

Na terça-feira, 30 de junho, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, denunciou Jader em um dos quatro inquéritos a que ele responde no Supremo Tribunal Federal. No Senado, o peemedebista ainda é o campeão de ações penais - responde a cinco. Seu advogado, Eduardo Alckmin, disse que a nova acusação "é um pouco mais do mesmo". Atribuiu-se a ele, segundo o defensor, a indicação de um superintendente que teria praticado desvios bilionários na Sudam. O advogado nega.

'Muito tranquilo'. Responsável por defender no Supremo a tese segundo a qual a Lei da Ficha Limpa só poderia valer nas eleições de 2012 - o que garantiu a volta de Jader ao Senado -, Eduardo Alckmin disse que todos os casos contra seu cliente no Supremo são "muito tranquilos". Ele ressalta que as instâncias inferiores da Justiça têm rejeitado acusações de pessoas ligadas aos escândalos de Jader e que até o final do atual mandato todas essas investigações serão derrubadas. "Criou-se uma imagem muito negativa do Jader em função dos embates que travou com o ex-senador ACM e até hoje se tem uma imagem negativa indevidamente. A prova é que no Pará ele é muito bem quisto e muito bem votado", afirmou Alckmin.

Procurada desde quinta-feira, a assessoria de imprensa de Jader disse que ele estava "incomunicável" em missões políticas no interior do Estado, mesmo tendo o Senado voltado à atividade na quinta-feira.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.