Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Após orientar voto em Bolsonaro, dirigente do Sesc/Senac recua e prega liberdade na urna

Este tipo de orientação de patrões é rechaçada pela Justiça Eleitoral por configurar uma ofensa ao direito de escolha dos empregados

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2018 | 16h35
Atualizado 06 Outubro 2018 | 16h33

RIO DE JANEIRO - O empresário Luiz Gastão Bittencourt, vice-presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, administradora do Sesc e do Senac do Rio de Janeiro, orientou funcionários a votar em Jair Bolsonaro (PSL) nas eleições 2018 em comunicado interno distribuído na quinta-feira, 4, e, diante da repercussão negativa, recuou.

Bittencourt soltou uma nova mensagem, dizendo que cada um deve votar “com a sua própria consciência”. O comunicado original, intitulado “Vamos votar com o Brasil!” e acompanhada de uma bandeira nacional, foi divulgado pela intranet na quinta-feira, 4. Dizia: “Voto como cidadão e indico a todos aqueles que acreditam no meu trabalho, nas minhas ações e na minha determinação de servir à sociedade, que votem em Jair Bolsonaro. Votem com o Brasil, com a família e com Deus acima de tudo”.

No texto da tarde desta sexta-feira, 5, compartilhado também pela intranet, ele mudou o tom: “No espírito mais democrático, que sempre marcou minha vida e trajetória, fiz uma manifestação pessoal a respeito do momento eleitoral. Somos parte de uma instituição que tem como princípio incentivar a cidadania e o livre pensamento, na construção do diálogo democrático. Cada um vote com a sua própria consciência, da mesma forma como farei. E que o respeito mútuo se sobreponha ao radicalismo de qualquer natureza”.

O novo texto diz ainda: “Esse espaço está aberto e será livre para qualquer manifestação a favor de quaisquer outros candidatos e ou ideias. Por um Brasil melhor, com mais diálogo e sempre com respeito mútuo à divergência, construiremos nosso amanhã”. Mais cedo, questionado pela reportagem, Bittencourt informou, por meio do Senac, que não daria entrevista. Ele soltou nota à imprensa em que dizia ter se tratado do “posicionamento do cidadão Luiz Gastão Bittencourt”, e que “não pode ser interpretado como incentivo ou recomendação de qualquer natureza.”

A mensagem veiculada na quinta-feira era bem explícita na orientação pró-Bolsonaro: “Acabei de ser eleito vice-presidente administrativo da CNC, e não tenho dúvida nem medo dos comentários que afirmam que Paulo Guedes, pessoa que deverá ser o homem forte da economia do governo Bolsonaro, vai mexer ou mesmo acabar com as contribuições do sistema S”.

Dizia também: “Está chegando a hora de decidirmos o futuro de nosso País, de nossas vidas e das futuras gerações. É hora de pensar o que nós queremos. É hora de decidir qual modelo almejamos, sem nos importar no que isso pode significar para nossa individualidade. Tempo de lutar pelo que realmente fará a diferença”.

O texto apresentava Bittencourt como um defensor do “direito à propriedade, da livre iniciativa e da meritocracia”, alguém que “crê num ser superior e na família”. Ele sublinhava que o Brasil está num momento “em que o coletivo deva prevalecer sobre o individualismo”, no qual “ser honesto, patriota e respeitador das leis” não deve ser “um fato extraordinário”, mas “um hábito comum.”

O comunicado foi recebido com espanto por parte dos destinatários, que o divulgou para denunciar a prática. Este tipo de orientação de patrões é rechaçado pela Justiça Eleitoral, por configurar uma ofensa ao direito de escolha dos empregados.

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