Diretor da polícia cai após dizer que Agnelo sairia 'de camburão'

Onofre Maraes pediu exoneração do cargo ontem, após a divulgação de um vídeo onde ele cita o governador do DF

FÁBIO FABRINI / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2012 | 03h09

O diretor-geral da Polícia Civil do Distrito Federal, Onofre Moraes, pediu exoneração do cargo ontem, após a divulgação de um vídeo no qual aparece dizendo que o governador Agnelo Queiroz (PT) acabará deixando o governo "de camburão da Polícia Federal".

Na gravação, ele ainda acusa o vice-governador do DF, Tadeu Filippelli (PMDB), de integrar esquema para boicotar uma licitação e, supostamente, favorecer empresários. "Ele (Filippelli) está pegando os negócios do Arruda", comenta, referindo-se ao ex-governador José Roberto Arruda, que caiu por envolvimento no "mensalão do DEM".

As declarações são de junho do ano passado, quando Agnelo já era investigado pela Polícia Federal. Onofre, que ainda não comandava a Polícia Civil, articulava nos bastidores para ocupar o cargo. As conversas foram gravadas na casa do jornalista Edson Sombra, uma das testemunhas da Operação Caixa de Pandora, que levou à prisão de Arruda.

Além do delegado e do jornalista, aparecem no vídeo outras três pessoas. Na conversa, Onofre reclama da então chefe da Polícia Civil, Mailine Alvarenga, a quem desejava substituir. Ele cita um telefonema: "Liguei e falei: 'Quando o seu governador estiver saindo de camburão da Polícia Federal e eu estiver aposentado, só vou falar: pede à diretora para tirar ele (sic)'. Foi o recado que eu mandei. Direto", disse o delegado. Na gravação, não fica claro quem era o interlocutor.

Segundo Onofre, Agnelo cairá por causa da visibilidade do seu cargo. Dirigindo-se a um dos presentes na gravação, ele afirma: "Você é um delegado de plantão, faz seus esquemas. Vira delegado-adjunto, vai fazendo seus negocinhos, ainda é pintinho. O problema do Agnelo foi esse: quando ele era deputado e ficava só no periférico, tudo bem".

Em outro momento da conversa, Dogival Galdino se queixa de que há uma "força-tarefa" do governo para derrubar uma licitação de terrenos da Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap), a qual teria vencido.

Onofre, então, explica que uma investigação fora aberta na Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Administração Pública, propositalmente, para anular o processo. "Sabe quem está por trás desse negócio? O Filippelli."

O diretor-geral foi chamado para uma conversa com Agnelo na manhã de ontem e, à tarde, num pronunciamento lacônico, o governo anunciou sua saída. Em nota, o governador disse ter aceitado o pedido de exoneração, embora reconhecendo o "bom trabalho técnico" que o diretor vinha realizando. É provável que o restante da cúpula da Polícia Civil também peça demissão. O substituto não foi definido.

Numa entrevista de despedida, Onofre se negou explicar as gravações. "Era uma conversa na casa de um amigo, como a gente conversa no botequim. Ele sempre falava que nunca gravaria um amigo", queixou-se de Sombra.

O mais recente escândalo no DF começou no sábado, quando a revista Veja publicou reportagem na qual o delator do mensalão do DEM, Durval Barbosa, sustenta ter recebido de Onofre uma oferta de R$ 150 mil para não fazer denúncias contra o governo.

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