Dirceu ouve 'pega ladrão' ao votar em São Paulo

Ex-ministro e José Genoino foram às urnas blindados por militância contra manifestações

FAUSTO MACEDO E RENÉE PEREIRA, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2012 | 03h04

Condenados por formação de quadrilha e corrupção ativa no processo do mensalão, José Dirceu e José Genoino apresentaram ontem à cidade uma nova característica em comum: para votar, eles se fizeram acompanhar de uma militância convocada para impedir a qualquer custo manifestações de repúdio a ambos e, de quebra, afastar os jornalistas dos dois.

"Dirceu, guerreiro do povo brasileiro", entoou a turba logo que o ex-ministro-chefe da Casa Civil, empalidecido, desembarcou da Hilux preta, às 15h40, em frente à Escola Estadual Princesa Isabel, no Bosque da Saúde.

Genoino votou em um colégio no Butantã pouco depois das 16 horas. Vestido com uma camisa vermelha, levantou os braços em sinal de vitória e, em seguida, foi envolvido por um grupo de militantes que atacou os repórteres a socos, pontapés e empurrões. Na confusão, empurraram eleitores, repórteres, cadeiras e mesas. Uma mulher idosa, de bengala, foi derrubada e ali ficou sem que ninguém lhe prestasse socorro.

Como no 1.º turno, Dirceu não falou com os jornalistas. "Vou falar depois do julgamento, só vim votar", disse o ex-ministro, referindo-se à Ação Penal 470, que chegou à sua etapa derradeira - os ministros do Supremo Tribunal Federal deverão fixar a pena para ele e para Genoino em novembro.

A chegada do ex-ministro fez ferver a Rua Ibirarema, que quase se transformou no palco de um entrevero, ante a inércia de dois policiais militares. De um lado, um grupo menor recepcionou Dirceu a seu modo. "Pega ladrão! Mensaleiro quadrilheiro!"

A reação foi imediata. Um contingente ruidoso e truculento, em número bem maior que o antagonista, entrou em cena. Eram os "amigos do Zé", como se identificaram os militantes vestidos com camisetas vermelha, umas com a estrela do PT e muitas com a foto do ex-ministro estampada e os dizeres: "Dirceu, estamos com você".

Precaução. A caminho do portão da escola, antes de atingir a sarjeta, ele recomendou aos companheiros: "Devagarzinho, cuidado, cuidado". O grupo invadiu as dependências do Princesa Isabel escoltando Dirceu, quase levado nos braços por sua turma, que distribuiu cotoveladas e empurrões a quem dele se aproximasse.

Por precaução, a direção do colégio já havia mandado retirar bancos e mesinhas do caminho do ex-ministro, que subiu dois lances de escada, dobrou à esquerda e depois à direita até chegar à urna eletrônica da 93.ª seção eleitoral.

A tropa de choque do PT, desta vez, aperfeiçoou a ação e até levou fotógrafo e câmera de TV. A estratégia era produzir uma espécie de contraprova e documentar que a militância apenas "se manifesta pacificamente" e protege o ex-ministro de "atos hostis do partido da imprensa golpista".

Um homem que se apresentou como "JB Almeida, muito prazer", chegou em um carro branco e desafiou a militância de Dirceu com uma lata de cerveja na mão. "Vocês são uma corja, vocês são da quadrilha."

Urubus. Quase foi espancado, aos gritos de "Cachoeira, Carlinhos Cachoeira", alusão ao contraventor preso em Brasília aliado de políticos tucanos de Goiás.

Dirceu partiu às 15h45. Mais tarde, na quadra do sindicato dos bancários, com Genoino e dirigentes da CUT, ele acompanhou a apuração.

Do outro lado da cidade, seu colega de banco dos réus do mensalão, Genoino, chegou para votar e também foi blindado por uma turma arredia. Eles hostilizaram a imprensa com a mesma frase que o ex-deputado dedicou aos jornalistas no 1.º turno: "Vocês são uns urubus".

Genoino estava envolto em uma bandeira do Brasil, que lhe foi dada por um militante. Cerca de uma hora antes de o ex-presidente do PT votar, seus aliados e correligionários do PSDB entraram em conflito em frente ao colégio. "Vamos enterrar o Serra", provocaram os petistas. "A quadrilha chegou", devolveram os tucanos.

O ministro revisor do processo do mensalão, Ricardo Lewandowski, passou por constrangimentos ao votar, perto do meio-dia, no colégio Mário de Andrade, em São Paulo. Enquanto ele dava entrevista, uma senhora se aproximou e exclamou: "Que nojo!"

Assim como no 1.º turno, Lewandowski entrou pela porta dos fundos da escola. Mas, 20 minutos antes de sua chegada, os repórteres que estavam no local a sua espera foram expulsos pela Polícia Militar, por ordem do juiz eleitoral Alexandre David Malfatti. Depois de votar, no entanto, Lewandowski falou com os jornalistas.

Sobre a repercussão de sua atuação no processo do mensalão, o ministro disse, entre outras coisas, "esse é o papel do revisor, um papel importante, de apresentar um contraponto". Quando terminou a entrevista, um mesário aproximou-se e disse: "Mande um abraço para o Zé Dirceu", referindo-se ao ex-ministro da Casa Civil, que foi absolvido por ele. / LÍLIAN CUNHA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.