Dirceu diz a dirigentes petistas que vencer eleição é mais importante que julgamento

Vinte e quatro horas após a condenação do núcleo político do PT no julgamento do mensalão, a cúpula petista fez duro ataque ao Judiciário e avaliou que a elite adota "dois pesos e duas medidas" para criminalizar o partido. Mesmo assim, em reunião com o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu e o ex-presidente do PT José Genoino - condenados pelo Supremo Tribunal Federal por corrupção ativa -, o Diretório Nacional da legenda decidiu desviar o foco do escândalo e adotar o pragmatismo, na tentativa de vencer as eleições municipais.

VERA ROSA , FAUSTO MACEDO , FERNANDO GALLO, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2012 | 03h06

"Nossa prioridade, agora, é ganhar o segundo turno, principalmente em São Paulo, contra o PSDB. O mensalão será uma batalha para muitos anos", afirmou Dirceu, ovacionado pela plateia, formada por cem dirigentes, senadores e deputados. Com esse diagnóstico, o PT congelou a intenção de fazer desagravos a ele, a Genoino e ao ex-tesoureiro Delúbio Soares, também condenado pelo Supremo.

A portas fechadas, Dirceu garantiu que não cairá deitado nem abandonará a política, mesmo que seja preso. Não foi só: disse que todo o ataque do PSDB deve ter revide à altura, com a lembrança do mensalão tucano. Antes de chegar ao PT, ele postou em seu blog texto no qual agradece a solidariedade recebida. "O apoio (...) me dá forças e enche minha alma de luz e de vontade de lutar", escreveu.

Enquanto a cúpula do PT atacava a "hipocrisia" e a "intolerância" de "setores conservadores", a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se debruçavam sobre o mapa eleitoral. Dilma desembarcou em São Paulo para almoçar com Lula.

Os dois escalaram ministros e dirigentes do PT para apagar incêndios e atrair o apoio do PRB de Celso Russomanno à candidatura de Fernando Haddad (PT). Queriam, também, reverter a decisão do PDT de aderir a José Serra (PSDB). Não conseguiram. O PRB, que se declarou neutro, e o PDT de Paulinho da Força integram a base aliada e estão insatisfeitos com o espaço no governo.

Chamado às pressas por Lula e Dilma, o presidente do PT, Rui Falcão, deixou a reunião do Diretório Nacional logo após ser aprovada a resolução política, mas sem encaixar as emendas ao texto. No documento, que não menciona a palavra mensalão, os petistas se dizem vítimas de uma "intensa campanha promovida pela oposição de direita e seus aliados na mídia, cujo objetivo explícito é criminalizar o PT".

Hipocrisia. A resolução que passou pelo crivo de Lula, na véspera, dá o tom da estratégia do PT para enfrentar os adversários nas 22 cidades onde o partido disputa o 2.º turno. A tática para o duelo ético é bater na tecla de que a democracia não aceita "dois pesos e duas medidas" e, portanto, o mensalão tucano tem de ser julgado com rigor.

"Não é a primeira nem será a última vez que os setores conservadores demonstram sua intolerância, sua falta de vocação democrática, sua hipocrisia, os dois pesos e medidas com que abordam temas como a liberdade de comunicação, o financiamento das campanhas eleitorais, o funcionamento do Judiciário, sua incapacidade de conviver com a organização independente da classe trabalhadora brasileira", diz o texto petista.

Na terça-feira, em reunião com candidatos do PT e prefeitos eleitos, Lula já havia classificado o julgamento do mensalão como "uma hipocrisia". Genoino propôs que o PT convocasse militantes e movimentos sindicais contra a "injustiça monumental" cometida pelo Supremo. Dirigentes do PT argumentaram, porém, que não seria conveniente tratar desse assunto na campanha eleitoral. Delúbio não foi à reunião, mas estava representado pela mulher, Mônica.

"Não sei mais se vai ter desagravo. Isso não é uma coisa pessoal. É política", afirmou o deputado Pedro Eugênio (PT-PE). O Estado apurou que a iniciativa passou a ser questionada por grupos do PT não alinhados à corrente majoritária Construindo um Novo Brasil, de Lula e Dirceu. "De qualquer forma, quem usar a desgraça dos outros para ganhar a eleição vai quebrar a cara", previu o líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto (SP).

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