'Dirceu criou a estrutura para lavar dinheiro'

"A lavanderia foi pensada por José Dirceu, Delúbio Soares e José Genoino", acusa o delegado Luiz Flávio Zampronha, da Polícia Federal, investigador do mensalão.

Entrevista com

FELIPE RECONDO, FAUSTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2012 | 03h08

Para Zampronha foi um erro da Procuradoria-Geral da República não ter denunciado por lavagem de dinheiro o ex-ministro-chefe da Casa Civil no governo Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-tesoureiro e o ex-presidente do PT.

O delegado avalia que a denúncia contra Dirceu por corrupção ativa "é forçada". Ele prevê que, se o Supremo Tribunal Federal pautar o julgamento do mensalão exclusivamente pelo critério técnico, o ex-ministro poderá ser absolvido de corrupção ativa.

O que foi o mensalão?

O PT assumiu o governo (em 2003) e precisava financiar a máquina. Existem vários pagamentos que a gente mostra (no inquérito do mensalão), inclusive nas eleições municipais. O Marcos Valério foi adotado por um núcleo do PT.

Qual o grau de envolvimento do ex-ministro?

O Dirceu precisava de uma estrutura de lavar dinheiro. O enquadramento correto do Dirceu, do Delúbio e do Genoino, na denúncia, era por lavagem. A lavanderia foi pensada por eles. O PT se viu na necessidade de criar um sistema financeiro. Era para caixa 2 e pagamentos (de parlamentares). Eles estavam planejando se perpetuar (no poder).

Dirceu foi denunciado por quadrilha e corrupção ativa.

Corrupção é forçada. Tem mais prova de lavagem do que da corrupção. Dirceu tinha o domínio, o Delúbio tinha. Eles não tinham que responder por lavagem? O crime de quadrilha é desdenhado. Na PF, quando a gente lê "fulano foi denunciado por quadrilha", a gente acha engraçado. É para não acontecer nada. Foi uma denúncia para a galera. A situação fica capenga. Se for um julgamento técnico não tem (condenação de Dirceu por corrupção ativa).

Precisa do ato de ofício para condenação?

O STF terá de decidir se o simples repasse já configura o ilícito ou se seria necessária a prova da venda. O ato de ofício estaria subentendido (se o STF decidir que a simples entrega do dinheiro configura corrupção). Seria uma revolução, divisor de águas. O mensalão foi uma etapa do esquema, foi o "dá um dinheiro para esse povo (os deputados)". O Dirceu e o Delúbio sabiam a origem do dinheiro. No mensalão mineiro o ciclo se fechou, os empréstimos foram pagos. No mensalão do PT, o ciclo não se fechou. O mensalão do PT tem empréstimo do BMG quitado com dinheiro da Visanet. Era fonte de recursos públicos.

Encontrou resistência?

Tive dificuldade. A concepção de lavagem de dinheiro do Ministério Público Federal foi limitada. É muita soberba do MPF. No começo tive a impressão de que foi bobeada do Antonio Fernando (ex-procurador geral, autor da denúncia). Produzimos as provas.

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