Dirceu corre o País para mobilizar bases do PT

Hesitação da sigla faz ex-ministro buscar apoios em uma agenda de viagens pelo Brasil

WILSON TOSTA / RIO, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h06

O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 10 anos e 10 meses de prisão no processo do mensalão, iniciou uma agenda de viagens pelo Brasil para mobilizar bases petistas e movimentos sociais em sua defesa.

Ainda à espera de que o PT se mobilize mais firmemente em seu favor, o deputado cassado quer recorrer a sindicatos e aos integrantes da legenda que o apoiam. O objetivo é defender, se necessário independentemente do comando partidário, sua inocência no processo e denunciar o que considera caráter político da sua condenação.

Defensores do ex-ministro avaliam que ele só deverá ser preso no fim do primeiro semestre de 2013, depois de esgotados e julgados todos os recursos possíveis. Enquanto não tiver uma resposta definitiva do Judiciário, que ainda não terminou o julgamento e deve publicar o acórdão só no ano que vem - o que permite que os advogados, a partir daí, entrem com recursos - e estiver livre, Dirceu quer percorrer o País - inicialmente, com atividades públicas no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Seus focos serão a plateia mais tradicional do petismo (como sindicalistas e o Movimento dos Sem-Terra) e setores da advocacia que questionem sua condenação sem provas diretas de seu envolvimento no suposto esquema de compra de apoio com dinheiro público desviado.

Hesitação. Dirceu ainda não fechou a agenda de mobilizações. Já avisou a companheiros do PT, porém, que não pretende ir para a prisão sem protestar - o que tem feito em seu blog, no qual critica o STF e a imprensa. Um dos pilares da movimentação do ex-ministro será a Central Única dos Trabalhadores (CUT), organização sindical criada pelo PT nos anos 1980.

O comando do PT tem, na avaliação de setores próximos a Dirceu, assumido postura dúbia e hesitante no caso. O partido promete solidariedade a seu ex-comandante, mas concretamente sua postura está longe do que seus atuais seguidores gostariam.

Cautela. Mesmo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem agido com cautela. Nos encontros com Dirceu, afirma estar com ele e o aconselha a recorrer à Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Nos bastidores, porém, Lula tem trabalhado para que as reações do PT ao julgamento do caso não tendam a prolongá-lo nos meios de comunicação, cenário que seria prejudicial aos petistas.

A postura discreta do comando do partido em relação à sentença tem defensores no governo, como a presidente Dilma Rousseff. Para essa corrente, não é interessante que o PT, com uma campanha em defesa de réus já condenados e sem mais nenhuma chance, perenize uma questão que é ruim para a imagem da legenda.

Esses setores avaliam que falhou a tentativa da oposição de usar o julgamento do mensalão para derrotar o partido nas eleições de 2012. Não querem dar espaço para que a mesma tática possa ser repetida em 2014, nas eleições presidenciais.

João Paulo. Com as presenças de Dirceu e do ex-deputado José Genoino, o deputado João Paulo Cunha (PT-SP) reuniu na noite de ontem em Osasco militantes do PT em uma espécie de ato de desagravo pela sua condenação no julgamento do mensalão. No palco da cerimônia, um painel com fotos do deputado exibia uma frase da escritora Cora Coralina: "Há mais esperança nos meus passos do que tristeza nos meus ombros". / COLABOROU ISADORA PERON

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