Dinheiro de Valério pagou festa do PT, disse Freud à CPI

Ex-assessor da Presidência afirmou que R$ 98,5 mil recebidos em 2003 eram para pagar serviços nas comemorações da vitória de Lula

FERNANDO GALLO , FAUSTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2012 | 02h06

O ex-assessor da Presidência Freud Godoy afirmou em junho de 2010 que os R$ 98,5 mil que recebeu de uma empresa de Marcos Valério em janeiro de 2003 se destinavam a pagar serviços de segurança que prestou ao PT em novembro e dezembro de 2002. Conforme revelou o Estado, Valério sustentou à Procuradoria-Geral da República que repassou a uma empresa de Freud cerca de R$ 100 mil, na mesma época, para pagar despesas pessoais do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Freud declarou que os serviços foram prestados em eventos que o partido promoveu para comemorar a primeira vitória de Lula nas urnas, em outubro do ano anterior.

"Nos meses de novembro e dezembro houve vários eventos de comemoração que o Partido dos Trabalhadores fez, e quando chegou em janeiro, tínhamos um saldo, um valor para receber, que estava em atraso do Partido dos Trabalhadores", relatou ele à CPI da Bancoop, que funcionou na Assembleia Legislativa de São Paulo na última legislatura. "Foi pedido que essa empresa SMPB pagasse à Caso Sistema de Segurança. A Caso foi paga pela SMPB, pelos eventos que foram feitos na época."

A Caso Sistema de Segurança é uma empresa de vigilância de propriedade da mulher de Freud, Simone, e do cunhado, Kleber, mas na prática é comandada pelo ex-assessor de Lula. A SMPB, por sua vez, é uma das agências de publicidade de Valério que compuseram o valerioduto e irrigaram o mensalão.

No depoimento à CPI, Freud reconheceu que não trabalhou para a agência de publicidade de Valério. "Não prestamos serviço à empresa dele diretamente", sustentou. Não foi, contudo, indagado pelos deputados porque recebera da agência de publicidade, e não diretamente do PT, a quem prestara o serviço. Tampouco deu detalhes.

O ex-assessor também não foi questionado sobre os motivos de ter sido uma outra empresa chamada Caso, também de sua propriedade, a receber pelos trabalhos de segurança, e não a própria empresa que em tese prestou o serviço: o depósito foi creditado na conta da Caso Comércio e Serviços, de propriedade de Freud e da mulher.

A empresa, segundo Freud declarou à CPI da Bancoop, é de pequeno porte e tentava entrar no "ramo de clubes", para trabalhar com limpeza de piscinas. "Era uma outra empresinha que a gente tinha, que era Caso Comércio de Serviço. A gente estava criando para entrar no ramo de clubes, porque a gente estava tomando conta de um clube na época, e ia tentar trabalhar com produto químico, piscina e tal."

Foi então questionado pelo deputado Bruno Covas (PSDB): "Uma empresa de produto químico, de piscina, prestou serviço de segurança na campanha?". Freud respondeu: "Sim", e confirmou que o trabalho foi feito "de forma irregular", porque nenhuma das duas empresas estava habilitada pela Polícia Federal para oferecer serviços de segurança, uma exigência legal.

A Caso Comércio e Serviços foi fundada em 1998 e ainda está ativa. Tem capital social de R$ 10 mil e Freud como sócio majoritário. Ela fica em um apartamento em um prédio no bairro do Paraíso, zona Sul de São Paulo.

O depósito destinado a Freud foi identificado em 2005 pela CPI dos Correios, mas só veio à tona depois que o então assessor de Lula se tornou conhecido, quando foi envolvido no chamado "escândalo dos aloprados". Ele foi acusado de ter ordenado a compra de um dossiê contra tucanos que seria usado nas eleições de 2006. Contudo, nunca foi indiciado, nem pela PFl, nem pela CPI dos Sanguessugas.

Freud não estava na empresa ontem à tarde e não retornou as ligações e nem o e-mail encaminhado pela reportagem. Anteontem, ele negou à TV Globo que tenha recebido R$ 100 mil de Marcos Valério: "Não tem nenhum dinheiro na minha conta nem na conta do presidente". Ele afirmou que iria processar o empresário pelas declarações dadas ao Ministério Público. "Quero ver ele provar isso", disse o ex-assessor de Lula.

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