Dilma tem de se livrar do 'entulho pesado', diz FHC

Em entrevista à 'Rádio EstadãoESPN', ele critica governo por deixar siglas escolherem ministros

GABRIEL MANZANO, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2011 | 03h06

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) classificou ontem como "entulho pesado" os ministros herdados do governo anterior pela presidente Dilma Rousseff e que marcaram, com seguidos escândalos e demissões, o primeiro ano de seu governo. "Ela tem de se livrar dessa canga", afirmou o ex-presidente em entrevista à rádio Estadão ESPN. Por causa desse entulho e da crise internacional, disse, ela "teve um ano difícil" e, em razão disso, "o primeiro ano de seu governo vai ser o seguinte".

Nos 38 minutos da entrevista, FHC fez seguidas comparações entre seus oito anos e a era petista e ressaltou que foi sempre ele quem escolheu seus ministros. "Nunca tive tolerância. Eu dizia 'tem suspeita, cai fora'. Não era como agora, quando parece que a situação se inverteu. Tem suspeita, fica lá até que a Justiça prove o contrário. Mudou a qualidade." Ele condenou o costume de deixar que os partidos escolham os ministros. "A responsabilidade para indicar ministro, no regime presidencialista, é do presidente."

O ex-presidente falou também sobre as eleições municipais em São Paulo (leia abaixo), de reforma política e repetiu que "foi um erro" o PSDB não ter defendido seu programa de privatizações. Também comentou seu novo livro, A Soma e o Resto, e adiantou que já tem outro volume em andamento, sobre pensadores brasileiros. A seguir, alguns dos principais trechos da entrevista.

ENTULHO DA DILMA

"Quando o Lula assumiu, o Zé Dirceu disse que tinham uma herança maldita, mas a Dilma tem um entulho pesado que é esse sistema clientelístico, de troca de favores, de entregar um ministério inteiro a um partido para fins que já se sabe que não são os mais saudáveis. Ela levou esse ano todo tentando contornar o temporal da crise internacional e essa canga, esse peso morto. Ela tem de se livrar disso. Ela levou um ano difícil. O primeiro ano dela vai ser o ano seguinte."

REFORMA MINISTERIAL

"Não se deve dar conselho a presidente, mas ela tem uma base partidária maior que o necessário. Se dispensar dois ou três desses partidos menores, que dão dor de cabeça, não acontece nada."

PSDB

"Para retomar o poder, o PSDB tem de falar com o País, com a parte da sociedade que confia em você, para ela sentir que há um outro rumo. Para o PSDB ganhar corpo, tem de ter um candidato presidencial desde já."

TUCANOS PRESIDENCIÁVEIS

"São os de sempre. Serra, Aécio, eventualmente o Geraldo Alckmin. Não adianta eu querer este ou aquele. Ganha quem conseguir ganhar a sociedade. Eu lamento que fiquem brigando um com o outro, porque não está na hora de brigar."

SERRA OU AÉCIO

"O Aécio não foi lembrado antes porque o nome forte era o Serra. Era só olhar as pesquisas. É ilusão achar que a cúpula é que decide. É preciso que a população queira. Candidato de si mesmo não vale nada. (...)Se hoje o Aécio é mais forte? Não sei, é preciso avaliar. E não adianta ser hoje, tem de ser daqui a dois ou três anos."

CORRUPÇÃO NA POLÍTICA

"Chegamos a um ponto grave no Brasil. Alguns dizem 'sempre houve corrupção no mundo...'. Mas aqui não, você está tendo a corrupção como condição para governar. Ela passa a ser parte do jogo. Você entrega o ministério a um partido sabendo de antemão que o que esse partido quer são meios de se fortalecer. Acho isso muito grave."

PAPEL PRESIDENCIAL

"Quando governei, os procuradores eram muito ligados ao PT e denunciavam tudo. Foi para o tribunal, não teve nada efetivo, só onda. E não tive leniência, tolerância. Tem suspeita, cai fora. Não é como agora, parece que inverteu: tem suspeita, fica lá até que se prove o contrário. Mudou a qualidade. Não vou dizer que não tenha tido corrupção no meu governo, porque... provavelmente sim. O que vou dizer é o seguinte: aquilo não era condição pra governar. Eu escolhia os ministros, não era o partido. Tem de haver um pouco mais de responsabilização nessas questões. Agora parece que estamos num sistema em que os partidos é que indicam. Não pode, aí ninguém é responsável por nada."

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