Dilma projeta parcerias com Haddad para renovar discurso petista em 2014

O PT pretende utilizar a gestão de Fernando Haddad em São Paulo a partir de 1.º de janeiro de 2013 para reciclar sua agenda programática. Cravada no coração do principal reduto do PSDB, a cidade promete ser, a partir do ano que vem, "laboratório" de testes de projetos do governo federal que poderão servir de bandeira na campanha eleitoral de 2014.

LU AIKO OTTA , JOÃO DOMINGOS / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2012 | 02h05

A promessa de Haddad de "derrubar os muros" que separam a população pobre da rica será complementada, segundo petistas, por um trabalho conjunto da Prefeitura com a presidente Dilma Rousseff com foco especial na nova classe média, um contingente de 40 milhões de consumidores surgido na última década.

Em conversas com seus conselheiros políticos, Dilma costuma repetir que essa parte da população brasileira continua sem acesso a planos de saúde e a escolas particulares. Acabará cobrando, portanto, a melhoria desses serviços do poder público.

"Nosso grande desafio é o da melhoria dos serviços públicos, porque esses 40 milhões que entraram na classe média recentemente ainda têm renda muito baixa", disse o deputado Paulo Teixeira (SP), um dos petistas que trabalhará na tentativa de transformar projetos da gestão Haddad num laboratório para o programa de governo do partido com vistas à campanha de 2014.

Trata-se da conclusão de uma adaptação de rumo que o PT vem conduzindo desde os últimos anos de mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Representante do movimento sindical e ligado diretamente aos movimentos sociais, Lula e o PT chegaram ao poder com propostas voltadas diretamente à inclusão social da população pobre.

Por isso, no seu primeiro mandato como presidente, a partir de 2003, os principais programas do governo tinham esse claro tom, como o Fome Zero, Primeiro Emprego e Bolsa Família.

O modelo ampliou a popularidade de Lula e garantiu a ascensão de uma nova classe média. E passou a exigir da presidente Dilma e do PT a adoção de novas bandeiras, voltadas justamente para essa nova classe média.

A opção por São Paulo foi provocada pela eleição de Haddad para a Prefeitura, interrompendo um ciclo de poder ligado politicamente ao tucano José Serra.

Bilhete. Os experimentos abrangerão áreas como o transporte público. O Bilhete Único Mensal, uma das principais bandeiras de Haddad na eleição, é uma grande aposta. A economia que o projeto - adotado em cidades dos EUA e em vários países da Europa - poderá proporcionar às famílias abrirá, na expectativa das equipes de Haddad e de Dilma, mais espaço para mais consumo.

Na área de saúde, segundo Teixeira, a ideia é manter as parcerias com os hospitais Albert Einstein e Sírio Libanês no modelo em que organizações sociais administram os equipamentos da área. O assunto é controverso no PT - parte dos integrantes da legenda é contra tais parcerias -, motivo pelo qual a campanha de Serra, adversário de Haddad no 2.º turno, utilizou bastante o tema na reta final da disputa de 28 de outubro. Haddad foi convencido a manter as parcerias, principalmente aquelas com instituições de renome.

Os convênios com o governo federal serão explorados. O ministro da Saúde é Alexandre Padilha, um dos pré-candidatos do PT ao governo do Estado em 2014.

Em habitação, a ideia é aumentar a presença do programa federal Minha Casa Minha Vida.

Quanto à segurança, a gestão Haddad tentará fazer parcerias com o Estado - governado pelo tucano Geraldo Alckmin - para que parte do policiamento seja feito pela guarda civil, que é de responsabilidade da Prefeitura.

Prioridade. Mas é na educação, área comandada nos últimos seis anos no governo federal pelo prefeito eleito, que a integração com o governo federal será prioritária. "Temos um imenso potencial de parceria nessa área", diz o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, outro pré-candidato do PT ao governo estadual. "País rico é país sem pobreza, mas país desenvolvido é país com educação de qualidade."

Um dia após ser eleito, Haddad esteve no Ministério da Educação, em Brasília, para discutir a construção de creches. O governo federal se propõe a construir 175 na cidade, num investimento total de R$ 228 milhões. Fotos das unidades já construídas mostram que são escolinhas bem equipadas que não ficam devendo às particulares.

Outro programa federal pouco aplicado em São Paulo que promete instrução padrão classe média para os alunos de escolas públicas é o Mais Educação. Nele, a jornada de estudos é estendida para sete horas.

No período adicional, o estudante tem aulas de reforço, esportes, artes, visita a museus, bibliotecas, laboratórios de instituições conveniadas. O governo fornece também transporte, monitores e refeições para o período.

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