Dilma prepara reforma ministerial enxuta para afagar PMDB e PSD

Mudanças pontuais. Redefinição do 1º escalão deve ocorrer após a eleição que renovará o comando da Câmara e do Senado, em 1º de fevereiro de 2013; intenção é evitar pressões dos partidos da base aliada e ruídos na dobradinha entre o PT e o PMDB

Vera Rosa, de O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2012 | 02h08

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff pretende fazer uma reforma ministerial enxuta, depois da eleição que renovará o comando da Câmara e do Senado, em 1.º de fevereiro de 2013. Até agora, Dilma avalia que é mais conveniente esperar a acomodação da base aliada no Congresso, antes de promover as trocas na equipe. A estratégia foi traçada para evitar o costumeiro jogo de intrigas e pressões, além de ruídos na dobradinha entre o PT e o PMDB.

Pré-candidata a um segundo mandato, em 2014, Dilma está mais política, faz afagos nos insatisfeitos e chama a reforma de "ajuste". Na prática, porém, ela tem seguido os conselhos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem se reuniu na última terça-feira: não vai comprar brigas desnecessárias, muito menos desalojar parceiros que podem estar no palanque petista, daqui a dois anos.

Depois de se unir a José Serra (PSDB) na eleição em São Paulo, o PSD do prefeito Gilberto Kassab ingressará na coligação governista, apoiará Dilma e ganhará um ministério. Presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, Paulo Simão - que comanda o PSD de Minas - é cotado para ocupar o recém-criado Ministério da Micro e Pequena Empresa. Nas fileiras do PSD, outras opções para uma vaga na Esplanada são o líder do partido na Câmara, Guilherme Campos (SP), o vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, e a senadora Kátia Abreu (TO).

A opção por Simão seria uma forma de ampliar o espaço de Minas na equipe. Dilma está decidida a contemplar Kassab, que em julho chegou a intervir na seção municipal do PSD para avalizar a candidatura de Patrus Ananias (PT), derrotado depois, em Belo Horizonte, na disputa contra o prefeito Márcio Lacerda (PSB).

O xadrez da reforma, no entanto, não é tão simples como parece. O PMDB de Minas, que retirou a candidatura na capital para ser vice na chapa de Patrus, também espera uma recompensa. Atualmente, o PMDB controla cinco ministérios (Minas e Energia, Previdência, Agricultura, Turismo e Secretaria de Assuntos Estratégicos) e o plano de Dilma é pôr o partido do vice-presidente Michel Temer no comando de mais uma cadeira.

Se nada mudar até fevereiro, porém, o contemplado não será mineiro. O acerto é para abrigar o deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP) no Ministério da Ciência e Tecnologia, hoje ocupado pelo técnico Marco Antônio Raupp. Chalita aderiu à campanha de Fernando Haddad (PT) no 2.º turno da eleição paulistana.

Fusão. Na tentativa de aumentar seu cacife, Kassab também se movimenta com a intenção de fundir o PSD com o PP do deputado Paulo Maluf (SP). A operação daria ao novo partido um tempo de TV cobiçado por qualquer candidato na propaganda eleitoral, além de uma bancada de 86 deputados, do tamanho da do PT, hoje a maior da Câmara.

"Ninguém nunca falou isso comigo", disse o senador Francisco Dornelles (RJ), presidente do PP, que também integra a base de sustentação do governo no Congresso. "Em política, porém, nada é impossível e nada é certo. Tudo pode acontecer, inclusive nada."

O PP comanda o Ministério das Cidades, objeto do desejo de vários aliados, que gostariam de desbancar Aguinaldo Ribeiro de lá. "Pois eu acho que o Aguinaldo é ministro não só até 2014, mas até 2018", arriscou Dornelles.

A Secretaria da Aviação Civil, hoje nas mãos de Wagner Bittencourt, também poderá ser alvo de mudanças. Senadores e deputados alegam que esse ministério tem mais ônus do que bônus, mas, de qualquer forma, a pasta é uma espécie de "plano B" para acomodar o PSD de Kassab.

O PSB do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, nega que o partido queira mais ministérios, além dos dois que já controla - Integração Nacional e Portos. "Se a gente fosse querer, íamos pedir logo uns vinte", provocou o governador do Ceará, Cid Gomes (PSB), que almoçou na quinta-feira com Dilma.

Um dia antes, Campos também conversou com ela. Em jantar no Palácio da Alvorada, o governador e presidente do PSB jurou fidelidade a Dilma e disse que o projeto de poder do partido é para 2018. Nos bastidores, porém, ele se posiciona para a disputa de 2014.

O PT fechou acordo que garante ao PMDB a presidência da Câmara e do Senado, a partir de fevereiro de 2013. Agora, o deputado Júlio Delgado (PSB-MG) quer se lançar candidato alternativo à sucessão na Câmara, contra o líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN). No Senado, o nome apresentado pelo PMDB é o de Renan Calheiros (AL), que em 2007 teve de renunciar à presidência da Casa, no rastro de denúncias de irregularidades.

Embora Campos tenha dito a Dilma que não definiu nada com Delgado, a dúvida em relação à estratégia do governador é constante no Planalto. "Eduardo Campos virou uma espécie de José Dirceu. Parece que está por trás de tudo", ironizou um ministro, numa referência ao ex-todo-poderoso chefe da Casa Civil, hoje réu no processo do mensalão.

O PSB derrotou o PT em Belo Horizonte, Recife, Fortaleza e Campinas. Conquistou 440 prefeituras e foi o partido que mais cresceu, proporcionalmente, em relação às eleições municipais de 2008, dando um salto de 42%. O PT elegeu 633 prefeitos e o PMDB, 1025.

"É claro que, após qualquer evento político, é hora de discutir a relação", admitiu o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT). "Houve estresse com o PMDB na Bahia e o PSB é um partido bastante cobiçado pela oposição, que quer rachar a base aliada. Mas, enquanto eles batem bumbo, nós vamos de berimbau. Tentamos sempre achar o caminho do meio."

Pré-candidatos. Pelo menos seis ministros do PT são pré-candidatos a governos de Estado, em 2014, mas nenhum deles deve deixar a Esplanada agora. Na Casa Civil, a tendência é que Gleisi Hoffmann (PT), citada para concorrer à sucessão no Paraná, continue no cargo por mais algum tempo. Com isso, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, um dos nomes do PT para disputar o Palácio dos Bandeirantes, pode não ser deslocado para outra pasta. Mercadante gostaria de ir para um ministério com mais peso político.

Em São Paulo, os outros pré-candidatos são Alexandre Padilha (Saúde), Marta Suplicy (Cultura) e José Eduardo Cardozo (Justiça). A ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) quer entrar no páreo em Santa Catarina. / COLABORARAM TÂNIA MONTEIRO E RAFAEL MORAES MOURA

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