Dilma pede que ministra siga ordens sobre aborto

Presidente elogia amiga de longa data, mas tenta afastar polêmica ao dizer que Eleonora Menicucci 'vai atuar seguindo diretrizes' do Planalto

RAFAEL MORAES MOURA /BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2012 | 03h02

Diante do fantasma da eleição presidencial de 2010, quando o PT temeu ser derrotado por conta do debate religioso em torno do aborto, a presidente Dilma Rousseff aproveitou a cerimônia de posse da nova ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, para enquadrá-la publicamente e deixar claro que as convicções pessoais devem se subordinar, agora, às políticas de governo.

"Tenho certeza que meu governo ganha hoje uma lutadora incansável e inquebrantável pelos direitos das mulheres. Uma feminista que respeitará seus ideais, mas que vai atuar segundo as diretrizes do governo em todos os temas sobre os quais terá atribuição", discursou Dilma.

A rápida ação da presidente foi uma forma de evitar mais polêmica e acalmar os ânimos da bancada religiosa no Congresso, que já preparou a artilharia contra Eleonora por conta de suas declarações pró-aborto. Socióloga e militante feminista, a ministra sempre defendeu abertamente suas convicções na vida acadêmica.

Assim que foi nomeada, no entanto, a nova ministra afirmou que seguirá as orientações de governo sobre o assunto e que caberá ao Congresso decidir sobre a descriminalização do aborto.

Ontem, após o claro recado de Dilma à ministra, a numerosa plateia, que até então era só aplausos, silenciou-se.

Eleonora, por sua vez, aproveitou o discurso de posse para criticar a disseminação de "padrão sexista" em salas de aula e serviços públicos de saúde e defendeu os direitos reprodutivos, sem mencionar a palavra aborto. "Não se pode aceitar que, ainda hoje, quando temos uma mulher no mais alto cargo do Executivo brasileiro, mulheres sejam vistas como meros objetos sexuais, que morram durante a gravidez, que tenham direitos reprodutivos e sexuais desrespeitados."

Em recentes declarações, Eleonora disse que considera o aborto uma questão de saúde pública, assim como o crack e outras drogas - para ela, esse assunto não é uma questão ideológica.

Anteontem, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) convocou pelo Twitter a bancada de evangélicos "para combater a abortista que nomearam ministra".

Em 2010, pressionada por religiosos, a então candidata Dilma foi obrigada a assinar carta em que se comprometia a deixar a discussão sobre o aborto a cargo do Congresso. Aliados de Dilma tiveram de atuar em segmentos evangélicos e católicos para deixar claro que a candidata defendia "a vida e a família" e que, se eleita, o Executivo não defenderia a descriminalização do aborto.

Socióloga, Eleonora assume a pasta no lugar de Iriny Lopes, que retorna à Câmara e quer disputar a Prefeitura de Vitória. Antes, Fernando Haddad deixou o Ministério da Educação para tocar a campanha em São Paulo.

Amizade. "Considero que eu escolhi a Eleonora por vários motivos, mas, sobretudo, pelo conjunto da obra", disse Dilma. "Tenho absoluta certeza que a Eleonora é capaz de assegurar, dentro da diversidade que é o nosso País, que todas as situações sejam consideradas, porque, quando nós assumimos o governo, nós governamos para todos os brasileiros e brasileiras, sem distinções políticas, religiosas ou de qualquer outra ordem."

Eleonora lembrou a trajetória ao lado de Dilma. Ambas ficaram presas na ala feminina do presídio Tiradentes, em São Paulo, conhecida como "Torre das Donzelas". "Nos engajamos na luta contra a ditadura militar. Engajamento que nos ensinou a lidar com as adversidades e a nunca nos omitir diante de uma situação, por mais difícil que venha a ser."

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