Dilma garante apoio e ministra rebate acusações

Planalto vê má-fé em declarações de ex-diretor da ANA ao 'Estado', mas está preocupado com desdobramentos de Operação Porto Seguro

VERA ROSA , TÂNIA MONTEIRO , RAFAEL MORAES MOURA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2012 | 02h01

A presidente Dilma Rousseff desqualificou as denúncias do ex-diretor da Agência Nacional de Águas (ANA) Paulo Vieira contra a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira. Em conversa com auxiliares, Dilma viu "má-fé" nas declarações de Vieira e pediu a Izabella que divulgasse nota rebatendo ponto por ponto a acusação de que teria pressionado repartições federais para aprovação de um projeto de interesse do ex-senador Gilberto Miranda, em Santos.

A nota divulgada ontem nega que a ministra tenha tratado do projeto de Bagres com outras autoridades ou que a diretora de Licenciamento do Ibama, Gisela Forattini, tenha ido "visitar e defender o empreendimento" de Miranda, como afirmou Vieira. O texto rebate afirmações de Vieira de que a agência seria um "cabide de empregos".

Outros ministros também saíram em defesa de Izabella e desqualificaram o ex-diretor da ANA. "Não dá para dar credibilidade a essas denúncias. De fato, não dá. O que dá (para dar credibilidade) está nos autos da Polícia Federal, que agiu e age com a autonomia de sempre", disse o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho.

Na mesma linha, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, lembrou que o inquérito da PF não cita Izabella. "Não é a tentativa de pessoas incriminadas, de desviar o foco da investigação ou mesmo diminuir o seu papel, que vai mudar esse roteiro tão bem realizado pela polícia", afirmou Cardozo. Para ele, a PF está investigando tudo de forma autônoma, com critério e cuidado.

Alvo da Operação Porto Seguro, Vieira foi apontado como chefe de uma quadrilha que se valia de cargos em agências reguladoras, na Advocacia-Geral da União e no gabinete da Presidência em São Paulo para negociar pareceres técnicos encomendados por empresários. Em entrevista publicada ontem pelo Estado, ele se disse "injustiçado", acusou a PF e o Ministério Público de "blindarem a ministra Izabella Teixeira" e lançou novas dúvidas sobre o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams.

Apesar da aparente tranquilidade no Planalto, o governo está preocupado com os desdobramentos da Porto Seguro e com as recorrentes citações ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A denúncia do caso envolve ex-servidores - além de Vieira, foram incluídos seu irmão Rubens, que era diretor da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), e Rosemary Noronha, ex-chefe do gabinete da Presidência em São Paulo - e pessoas próximas de aliados - Miranda é ligado ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).

Além disso, a situação de Adams ainda é delicada, embora ele continue frequentando as principais reuniões do governo. A portas fechadas, ministros dizem que Adams só não caiu porque não apareceu comprovação de que ele saberia do envolvimento de José Weber Holanda, número dois da AGU, no caso.

'Cabide'. O diretor-presidente da ANA, Vicente Andreu, rebateu ontem a acusação de que o órgão seria um "cabide de empregos", como disse Vieira, e negou a afirmação de que seria apadrinhado do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. "Conheço José Dirceu porque sou antigo militante do PT. Sou amigo dele como todos os militantes do partido."

Andreu disse que a agência tem hoje 71 cargos comissionados - 37 ocupados por pessoas de fora do serviço público e três nomeados a partir de 2010, quando o atual diretor-presidente assumiu o cargo. Andreu destacou que o orçamento anual da ANA para projetos e investimentos é de R$ 226 milhões, oriundos basicamente de cobranças do setor elétrico. Os recursos de contratos com ONGs correspondem a um porcentual "ínfimo" desse valor, segundo ele. A folha salarial é de R$ 365 milhões anuais.

Andreu disse que, ao chegar à ANA, Vieira foi "agressivo" e tentou recorrer a Rose Noronha para se impor no órgão. "Ele dizia: 'Vou falar com a Rose, a agência não é de vocês'", afirmou."Pensei que ele teria coragem de falar a verdade (após a operação). Agora, meu sentimento é de indignação. Ele é um delinquente, mau caráter."

No Senado, a oposição quer convidar Paulo Vieira para falar no Congresso, a exemplo do que já foi aprovado em relação ao irmão dele, Rubens. O ex-diretor da Anac respondeu que comparecerá à Casa, mas não agendou data. / COLABORARAM LEONENCIO NOSSA e DÉBORA BERGAMASCO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.