Dilma enaltece Comissão da Verdade, mas destaca 'pacto da redemocratização'

Presa política e torturada durante o regime militar, a presidente Dilma Rousseff, mesmo emocionada a ponto de apertar a boca para conter o choro que olhos marejados revelaram, repudiou o revanchismo nas investigações da Comissão da Verdade, instalada ontem em cerimônia no Palácio do Planalto. "O País reconhecerá nesse grupo, não tenho dúvidas, brasileiros que se notabilizaram pelo espírito democrático e pela rejeição a confrontos inúteis ou gestos de revanchismo", disse.

TÂNIA MONTEIRO, RAFAEL MORAES MOURA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

17 Maio 2012 | 07h48

Escudada por quatro ex-presidentes, Dilma afiançou o "pacto" político materializado na Lei da Anistia que permitiu a transição para a democracia, mas exigiu que a memória e as histórias dos mortos sejam reveladas, apontando a responsabilidade de agentes do Estado. "A sombra e a mentira não são capazes de promover a concórdia", ressaltou.

"Nós reconquistamos a democracia à nossa maneira, por meio de lutas e de sacrifícios humanos irreparáveis, mas também por meio de pactos e acordos nacionais, muitos deles traduzidos na Constituição de 1988", disse. "Assim como respeito e reverencio os que lutaram pela democracia enfrentando bravamente a truculência ilegal do Estado, e nunca deixarei de enaltecer esses lutadores e lutadoras, também reconheço e valorizo pactos políticos que nos levaram à redemocratização."

Dilma defendeu o direito de os familiares enterrarem os mortos durante o regime militar ao afirmar que "a força pode esconder a verdade, a tirania pode impedi-la de circular livremente, o medo pode adiá-la, mas o tempo acaba por trazer à luz e, hoje, esse tempo chegou".

Com voz embargada, em recado sobre o objetivo da comissão de mapear as responsabilidades dos agentes de Estado, disse que "as novas gerações merecem a verdade, e, sobretudo, merecem a verdade factual aqueles que perderam amigos e parentes e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo e sempre a cada dia". "O direito à verdade é tão sagrado quanto o direito que muitas famílias têm de prantear e sepultar seus entes queridos, vitimados pela violência praticada pela ação do Estado ou por sua omissão."

Ao lado dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Fernando Collor e José Sarney, e observada por uma plateia repleta de antigos presos políticos, como ela, a presidente Dilma fez um discurso firme.

Ela afirmou que a comissão, cujo propósito é averiguar as circunstâncias e o paradeiro de mortes e desaparecimentos de 1946 a 1988, não está movida pelo "revanchismo, ódio, ou o desejo de reescrever a história de uma forma diferente da que aconteceu".

Para a presidente, o que a move é "a necessidade imperiosa de conhecê-la (a verdade) em sua plenitude, sem ocultamento, sem camuflagem, vetos, sem proibições". Dilma disse ainda que a Comissão da Verdade terá toda liberdade para trabalhar "sem qualquer interferência do governo, mas com todo apoio que de necessitarem" e que será uma "comissão de Estado" e não de governo.

Presentes, os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, alem do chefe do Estado Maior das Forças Armadas, sentaram-se juntos e não escondiam o constrangimento com a situação. Os aplausos deles eram tímidos e, ao final, evitaram declarações à imprensa.

Em sua fala, a presidente indicou que o governo defende a preservação da Lei da Anistia, ao valorizar os acordos feitos no passado, que permitiram os avanços na democratização do País.

Dilma também defendeu que as investigações sejam levadas a fundo e sejam feitas para dar acesso à verdade.

Nomeações. A presidente fez questão de justificar também a escolha dos sete integrantes do colegiado, respondendo às críticas dos militares de que fez uma comissão de esquerda. "Não fui movida por critérios pessoais nem por avaliações subjetivas. Escolhi um grupo plural de cidadãos, de cidadãs, de reconhecida sabedoria e competência. Sensatos, ponderados, preocupados com a justiça e o equilíbrio."

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