Dilma e o 'efeito Crivella'

O jogo bruto da política se apresentou com toda a intensidade para a presidente Dilma Rousseff, rompendo um ciclo em que a capacidade impositiva do governo lhe permitiu demitir sete ministros sem incendiar a base legislativa.

JOÃO BOSCO RABELLO, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2012 | 03h06

O desgaste cumulativo desse processo, no entanto, somado à proximidade da campanha eleitoral e a falhas do próprio governo na busca de isonomia política entre PT e PMDB e na condução de temas controversos como aborto, homofobia e Comissão da Verdade, emparedou a presidente.

A última semana exibiu a vulnerabilidade de Dilma, pressionada simultaneamente pelo protesto público do PMDB, pela desobediência dos militares da reserva e pelo ingresso do bispo-senador, Marcelo Crivella (PRB-RJ), no ministério - uma imposição da conjuntura eleitoral paulistana.

O recurso ao ex-presidente Lula em busca de orientação exibiu, de quebra, o grau de dependência em relação ao criador, cujo conselho foi o de sempre: agradar a base a qualquer custo, ceder no que for preciso, pois a hora não permite riscos.

O enredo fechou com o choro incontido na posse de Crivella, que agora participa do ministério com a garantia de que não haverá iniciativas de governo em temas sensíveis aos evangélicos, sem prévia consulta ao pescador de almas.

Crivella será o contraponto interno a vozes como a da nova ministra Eleonora Menicucci, que estreou com um discurso pró-aborto, e adversário de causas como a cartilha anti-homofóbica - posições que conflitam com as convicções da própria presidente, adormecidas em favor da estratégia eleitoral.

TV é tudo para PSD

É nesse momento de fragilidade do governo, que tem na crise com o PMDB seu epicentro, que o PSD investe para ser o fiel da balança no Legislativo, onde é a quarta força parlamentar, com vistas a composição com Dilma em 2014. A aliança com o PSDB paulista foi uma inflexão inesperada que produziu reações do partido fora de São Paulo, estimuladas pela oposição tucana à concessão do tempo de TV à nova legenda. "TV é tudo", diz Saulo Queiroz, secretário-geral do PSD.

PDT distante

No contexto em que a presidente Dilma busca reunir todas as forças de sua base, previsões de movimentação ministerial são arriscadas. Mas é voz corrente no governo que o PDT é um aliado cada vez mais distante. Os vetos a nomes do partido que poderiam agradar ao Planalto para o Ministério do Trabalho favorecem o PTB para o lugar de Carlos Lupi. Com o PSC, alinhado na indicação, o bloco tem 40 parlamentares.

Tempo quente

A declaração do secretário-geral da Fifa, Jérome Valcke, propondo um "chute no traseiro" do Brasil chegou num momento em que o governo já se dizia no limite com as imposições da instituição, que não se limitam a questões mais paroquiais, como preços de ingressos ou venda de bebidas alcoólicas nos estádios. Na área das comunicações, o governo prepara um ultimato à Fifa: seu compromisso é viabilizar a infraestrutura nos estádios, mas não aceitará arcar com os custos dos serviços como quer Valcke.

A vez do MP

A iniciativa do Ministério Público de criar um órgão de controle nos moldes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), terá o estímulo do governo. Sobretudo porque alguns dos privilégios contestados hoje no âmbito do Judiciário, como adicionais de salário e pagamentos antecipados seletivos, tiveram origem no MP.

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