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Dilma e Marina trocam acusações sobre relação com bancos

Campanha da petista afirma que dar autonomia ao BC é entregar poder que é do presidente e do Congresso aos banqueiros e candidata do PSB responde que governo criou o 'bolsa banqueiro'

VALMAR HUPSEL FILHO, CARLA ARAÚJO, ISADORA PERON, MARCELO PORTELA, MATEUS COUTINHO, SUZANA INHESTA e FLAVIA GUERRA, O Estado de S. Paulo

09 de setembro de 2014 | 17h22

Um vídeo de 30 segundos exibido pela campanha de Dilma Rousseff (PT), que sugere submissão da candidata do PSB, Marina Silva, aos banqueiros ao afirmar que a autonomia do Banco Central proposta por ela entregaria a eles o poder político do País, provocou ontem uma troca de acusações entre as candidatas à Presidência.

Marina, em resposta, afirmou que o governo petista criou a “bolsa empresários”, a “bolsa banqueiros” e a “bolsa juros altos”. Confrontada com a declaração, Dilma disse que não é sustentada nem apoiada por banqueiros, numa referência à socióloga Neca Setubal, herdeira do banco Itaú e integrante da coordenação da campanha da candidata do PSB.

A discussão pública entre as principais concorrentes ao Palácio do Planalto ganhou tal dimensão que retirou do foco da campanha presidencial o tema corrupção na Petrobrás – que dominou a disputa nos últimos dias após as notícias de que o ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa, em sua delação premiada, citou políticos que estariam envolvidos com a suspeita de um esquema de pagamento de propina na petrolífera . 

A inserção exibida anteontem à noite pela campanha petista e repetida durante o horário eleitoral de ontem afirma que a independência, de forma institucional, do Banco Central – proposta que consta do programa de governo de Marina – vai entregar “um poder que é do presidente e do Congresso, eleitos pelo povo”, aos banqueiros. 

No programa eleitoral em que Dilma respondeu às acusações de corrupção no seu governo, e em que Marina e Aécio Neves (PSDB) insistiram em tratar das denúncias na Petrobrás, o vídeo foi apresentado pela campanha petista com um alerta: “Devemos estar atentos a outras formas mais sutis de desvio da riqueza da Nação para o bolso de uns poucos privilegiados”.


A peça mostra banqueiros sorridentes reunidos ao redor de uma mesa e relaciona a cena a imagens de uma família jantando, enquanto os alimentos e até os pratos e talheres começam a desaparecer. “Marina tem dito que, se eleita, vai fazer a autonomia do Banco Central. Parece algo distante da vida da gente, né? Parece, mas não é”, narra o locutor. “Isso significaria entregar aos banqueiros um grande poder de decisão sobre sua vida e de sua família, os juros que você paga, seu emprego, preços e até salários.”

Bolsas. Marina cumpria agenda em Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte, quando foi questionada sobre a propaganda petista. Ela lembrou que Dilma prometeu baixar os juros e não cumpriu. “Nunca os banqueiros ganharam tanto como em seu governo. Agora, eles, que fizeram a bolsa empresário, a bolsa banqueiro, a bolsa juros altos, estão querendo nos acusar de forma injusta em seus programas eleitorais”, afirmou.

O assunto dominou também a agenda seguinte da ex-ministra, na capital mineira. “No governo Fernando Henrique Cardoso os bancos tiveram um lucro, em valores atualizados, de R$ 31 bilhões. No governo Lula, esse lucro foi de R$ 199,46 bilhões”, afirmou. Para reforçar a crítica, Marina citou declaração de Lula feita em julho em resposta a um informe interno do banco Santander que relacionava o crescimento de Dilma nas pesquisas de intenção de voto à piora da economia brasileira. Na ocasião, o ex-presidente afirmou que “não há lugar no mundo em que o Santander esteja ganhando mais do que no Brasil”.

Segundo Marina, a autonomia do Banco Central “sempre existiu”, mas agora “está corroída pela contabilidade criativa” do governo petista. Ela afirmou que é necessário retomar a independência do BC “para que ele esteja a serviço dos brasileiros e não a serviço de um grupo, um partido”. “O Banco Central autônomo é para ter autonomia dos grupos que acabaram com a Petrobrás.” 

‘Sustentando’. Em São Paulo, pouco antes de participar de uma discussão sobre serviços de banda larga, Dilma estendeu o bate-boca público e respondeu à ex-ministra. “Não adianta querer falar que eu fiz bolsa banqueiro. Eu não tenho banqueiro me apoiando. Eu não tenho banqueiro, você entende, me sustentando”, disse a presidente, em referência a Neca Setubal.

No domingo passado, o jornal Folha de S.Paulo revelou que a herdeira do Itaú doou cerca de R$ 1 milhão em 2013 ao instituto fundado por Marina para desenvolver projetos de sustentabilidade, bancando 83% dos custos da entidade no ano passado.

Na entrevista, a presidente, que concorre à reeleição, repetiu a linha de críticas da inserção do PT, afirmando que a autonomia formal do BC significa que a instituição vai definir de forma direta a política econômica. “Representa uma coisa muito simples: vão definir a taxa de juros, as condições de política de crédito serão definidas automaticamente sem prestar contas ao Executivo e nem sequer ao Legislativo.”

O embate direto entre Dilma e Marina ocorre num momento de polarização da disputa pelo Palácio do Planalto. As duas candidatas estão na frente da corrida presidencial, com Aécio ocupando a terceira colocação.

Representação. A equipe jurídica do PSB protocolou ontem um pedido de resposta no Tribunal Superior Eleitoral contra a campanha de Dilma, assim como fez em relação à propaganda em que a petista diz que Marina seria contra a exploração de petróleo da camada pré-sal. A campanha da ex-ministra também estuda processar a presidente por calúnia.

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