Dilma defende liberdade de imprensa e que luta anticorrupção não seja contra a política

A presidente Dilma Rousseff abriu oficialmente ontem a 15.ª Conferência Internacional Anticorrupção, em Brasília, defendendo a liberdade de imprensa. Ela também ressaltou que "o discurso anticorrupção não deve ser confundido com o discurso antipolítica".

RAFAEL MORAES MOURA / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2012 | 02h03

"O combate ao malfeito não pode ser usado para atacar a credibilidade da ação política tão importante nas sociedades modernas, complexas e desafiadoras. O discurso anticorrupção não deve se confundir com o discurso antipolítica, ou anti-Estado, que serve a outros interesses", disse Dilma, que já perdeu sete ministros desde que tomou posse, em 2011, por suspeitas de irregularidades.

A declaração ocorre na reta final do julgamento do mensalão, no qual a antiga cúpula do PT e o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal, e um dia depois de parlamentares de oposição pedirem à Procuradoria-Geral da República que investigue se o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve participação no caso.

"(O discurso anticorrupção) Deve, ao contrário, valorizar a política, a esfera pública, a ética, o conflito democrático entre projetos que nela têm de ter lugar. Deve reconhecer o papel do Estado como instrumento importante para o desenvolvimento, a transparência e a participação política", completou a presidente.

Durante uma das sessões do julgamento do mensalão que antecederam as eleições municipais de outubro, a ministra da Corte Cármen Lúcia chegou a fazer um apelo pró política, cujo conteúdo se assemelha ao da declaração de Dilma. "Não gostaria que a dez dias de uma eleição o jovem brasileiro desacreditasse da política por causa do um erro de um ou de outro."

A tese de que o País vive hoje uma "criminalização da política" é usada pelos réus no julgamento do mensalão para criticar o Supremo. Na visão deles, as condenações são fruto dessa "criminalização" (mais informações ao lado).

No discurso de ontem, a presidente destacou a Controladoria-Geral da União (CGU), o Tribunal de Contas da União (TCU), a Polícia Federal, "um Ministério Público independente" e a imprensa como instrumentos "sólidos" da democracia brasileira.

"Mesmo quando há exageros e nós sabemos que em qualquer área eles existem, é sempre preferível o ruído da imprensa livre ao silêncio tumular das ditaduras. E nós, todo o povo brasileiro, conhecemos na pele o que estamos falando. Vivemos sob ditadura e lutamos e construímos nossa democracia", afirmou Dilma.

"A nossa democracia foi feita também baseada no fato de que a luta anticorrupção é uma luta democrática. O nosso governo oferece amplo respaldo aos órgãos de controle na fiscalização, investigação e na punição da corrupção e de todos os malfeitos", disse Dilma no discurso.

A presidente destacou o Portal da Transparência, a Lei da Ficha Limpa e a Lei de Acesso à Informação - que obriga o poder público a divulgar dados solicitados pelos cidadãos - como instrumentos de maior transparência e de enfrentamento à corrupção.

Segundo a presidente, a prevenção e o combate à corrupção são hoje "práticas de Estado".

Setor privado. A presidente defendeu também em seu discurso que o "Estado não é o único foco da transparência", sustentando que "outros setores, outros atores" da sociedade, incluindo a iniciativa privada, também merecem escrutínio público. "Desde o início da crise econômica e financeira, avolumou-se não só o clamor popular, mas a consciência, inclusive nos fóruns multilaterais, como é o caso do G-20 e outros, mas avolumou-se o clamor por mais transparência e mais adequada regulação desses fluxos financeiros internacionais", afirmou a presidente. "Sem o devido controle desses fluxos, estamos sujeitos a toda sorte de manipulação", completou Dilma.

A conferência anticorrupção reúne em Brasília cerca de 1.500 pessoas de 130 países, entre chefes de Estado, representantes de governos, da sociedade civil e acadêmicos. O evento termina no próximo sábado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.