Dilma dá sobrevida a Lupi para deter ala do PDT que age para tirar ministro

Desafiada por um racha no PDT, a presidente Dilma Rousseff concedeu sobrevida de tempo indeterminado ao ministro do Trabalho, Carlos Lupi. Ao detectar um movimento para torná-la refém da ala do PDT que quer derrubar o ministro e ocupar sua cadeira, Dilma resolveu pôr um freio de arrumação na "faxina". O objetivo é sinalizar ao aliado que é ela quem decide a hora de tirar e nomear auxiliares.

VERA ROSA, TÂNIA MONTEIRO / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2011 | 03h06

Ex-integrante do PDT, partido que ajudou a fundar no Rio Grande do Sul, Dilma tenta resistir à política de conspiração levada a cabo por dirigentes da sigla. Embora Lupi não tenha explicado quem pagou o avião King Air providenciado pelo empresário Adair Meira para ele viajar ao Maranhão, em dezembro de 2009, o governo avalia que sua situação não se complicou no depoimento prestado ontem à Comissão de Assuntos Sociais do Senado.

O Planalto considerou "grave" a denúncia, feita pela senadora Kátia Abreu (PSD-TO), de que o aluguel do King Air consta da prestação de contas de convênios do Ministério do Trabalho com a ONG Pró-Cerrado. Dilma, porém, exige provas, até agora não apresentadas pela senadora. O empresário Meira é dono de uma rede de ONGs que tem negócios suspeitos com o ministério. São convênios que ultrapassam a cifra de R$ 10 milhões.

Na prática, Lupi não está livre da degola, mas Dilma só o dispensará se houver indícios concretos de seu envolvimento em corrupção. A intenção da presidente é preservá-lo até a reforma ministerial, prevista para o fim de janeiro ou começo de fevereiro de 2012.

A estratégia do Palácio do Planalto consiste em virar a página da crise política com o lançamento de programas sociais. Ainda ontem, Dilma chorou ao anunciar o Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência. "Esse é o momento em que vale a pena ser presidente", disse ela, com lágrimas nos olhos (veja na página A8).

Na bancada do PDT, os mais próximos de Dilma, hoje, são os deputados Brizola Neto (RJ) e Vieira da Cunha (RS). Os dois são sempre citados como possíveis candidatos para substituir Lupi. Brizola Neto, porém, está em rota de colisão com o ministro, que manda no PDT e jamais o indicaria para o seu lugar.

"O governo está tornando o PDT uma espécie de vassalo", protestou o senador Cristovam Buarque (PDT-DF). "Não só o Lupi deveria sair do ministério como é mais do que aconselhável que o partido entregue o cargo. Isso causa muito desgaste para nós", emendou.

Dividido. O racha no PDT está longe de acabar. Uma fatia da legenda já decidiu entregar a cabeça de Lupi, sob a alegação de que é preciso se apressar para não ser atropelada pelo PT de Dilma, que está de olho na vaga.

A outra ala, menor, defende a permanência do ministro. Apesar de afastado do comando do PDT no papel, na prática é o próprio Lupi que dirige o partido e enfrenta forte oposição interna.

Lupi não conversou ontem com Dilma, mas telefonou para o chefe de gabinete da Presidência, Giles Azevedo, após o depoimento no Senado. Queria saber a repercussão de seu desempenho e foi tranquilizado.

Na avaliação do governo, Lupi foi mais direto e sincero ao falar para os senadores do que para os deputados, na semana passada. Na ocasião, em estilo agressivo, disse que só sairia do ministério "abatido a bala". Depois, advertido, pediu desculpas a Dilma. "Presidenta, eu te amo", bradou.

Chamou a atenção da cúpula do PDT, ontem, a ausência de parlamentares do PT para defender o ministro, no Senado. Lá estava presente apenas o senador Eduardo Suplicy (PT-SP).

"Essa ausência foi realmente muito estranha", insistiu Cristovam, após almoço com o presidente interino do PDT, deputado André Figueiredo (CE), e com o líder do partido no Senado, Acir Gurgacz (RO). "Nós discutimos como sair do atrelamento que vivemos, hoje, em relação ao governo e ao PT".

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