Dilma 'cospe no prato em que comeu', diz FHC

Segundo ex-presidente tucano, Dilma é 'ingrata' ao não reconhecer gestão econômica do PSDB no comando do Planalto

Marcelo Portela e Ricardo Brito, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2013 | 02h04

BELO HORIZONTE, BRASÍLIA - Fernando Henrique Cardoso afirmou ontem, em entrevista antes do seminário tucano realizado em Belo Horizonte, que a presidente Dilma Rousseff "é ingrata e cospe no prato em que comeu". O ex-presidente deu a declaração ao lado do senador Aécio Neves, pré-candidato do PSDB à disputa do Palácio do Planalto em 2014.

O ataque de FHC é uma resposta ao discurso de Dilma feito na semana passada, no evento de comemoração, em São Paulo, dos dez anos de governo petista no País. Na ocasião, além de ter sua reeleição lançada pelo antecessor e padrinho político, Luiz Inácio Lula da Silva, a presidente afirmou que os petistas não receberam herança alguma das gestões tucanas. "Nós construímos", disse Dilma à militância na quarta-feira passada. "O que a gente pode fazer quando a pessoa é ingrata? Nada. Cospe no prato em que comeu", respondeu ontem FHC.

A condução da economia do País vem ditando o debate entre os pré-candidatos à Presidência. No mesmo dia da festa petista em São Paulo, Aécio discursou na tribuna do Senado e exaltou a gestão econômica do correligionário FHC, cujo governo foi de 1995 a 2002. Enquanto tucanos dizem ser os responsáveis pelas bases macroeconômicas ainda em vigor, petistas afirmam ter mudado os rumos do desenvolvimento do País, chamado os adversários de neoliberais.

Na entrevista de ontem, FHC afirmou que o PT fez "uma usurpação". "O que aconteceu no Brasil foi usurpação de projeto. Só que como ele é usurpado, não faz direito. Vai e vem, recua, não tem coragem de dizer que vai privatizar", disse o ex-presidente, "Eles (petistas) tinham duas grandes metas. Uma ligada ao socialismo e outra à ética. De socialismo nunca mais ninguém falou. E ética, meu Deus, não sou eu quem vai falar a respeito do que está acontecendo no Brasil."

Aécio também falou antes do seminário, criado pelo PSDB para discutir justamente a conjuntura econômica. Não quis comentar as declarações do ex-ministro Ciro Gomes, segundo quem os possíveis adversários de Dilma em 2014, incluindo ele, Marina Silva e Eduardo Campos, "não têm visão" nem "projeto" para o País.

No Congresso. Ainda ontem, o vice-líder tucano no Senado, Alvaro Dias (PR), apresentou requerimento de convite para que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, explique a política econômica adotada pelo governo.

A intenção dos tucanos é usar a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) como palanque para, ao provocar o ministro, mirar no Planalto. Dias criticou as constantes previsões frustradas de Mantega em relação aos rumos da economia que, na opinião dele, têm levado o País à perda de credibilidade. Os tucanos querem ainda explicações sobre a "mágica contábil" feita no final do ano passado pelo governo para fechar as contas da área fiscal.

O líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), afirmou que a base aliada não deve criar qualquer empecilho para a aprovação vinda de Mantega. "O convite, eu acho absolutamente pertinente e não há nenhuma conotação de que o governo não queira atender as demandas do Senado para debater algo importante: a situação econômica", disse. "Teremos tempo para debater a matéria com essa tranquilidade, de quem quer debater com absoluta transparência essa questão." Para Braga, contudo, é necessário antes conversar com o próprio ministro para saber se aceita o convite. Mesmo que o requerimento seja aprovado pela comissão, o convidado pode recusar a ida ao Congresso. Apenas no caso de convocação é que o comparecimento se torna obrigatório. O líder do governo admite que o assunto só deve ser apreciado pela comissão daqui a duas semanas, uma vez que o colegiado deve eleger seu presidente e demais integrantes hoje.

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