Dilma confronta o Congresso e diz que é imprescindível fazer plebiscito e reforma

Presidente fez defesa pela consulta em reunião do Conselhão; horas depois, petista que vai coordenar grupo de trabalho na Câmara assegurou que nenhuma mudança valerá para 2014

Ricardo Della Colleta e Rafael Moraes Moura - O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2013 | 02h35

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff ignorou os descompassos entre seus aliados no Congresso e reafirmou ontem que considera a reforma política, feita por consulta popular - plebiscito -, "imprescindível" para responder aos anseios da população por mudanças no País. Em dissonância com diretrizes do governo, o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), coordenador do grupo de trabalho da reforma política criado na Câmara, foi categórico: "Este grupo não aprovará nenhuma medida para 2014. O que aprovarmos vai valer para 2016 e para 2018".

Os parlamentares da base e da oposição já haviam descartado a hipótese de fazer um plebiscito e colocam em dúvida até a votação de uma reforma ainda neste ano. Vaccarezza enterrou as esperanças da presidente e de seu próprio partido, o PT, de fazer uma reforma que entre em vigor nas próximas eleições.

Horas antes de Vaccarezza sentenciar o rumo dos trabalhos na Câmara, Dilma, em reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, insistia: "Tenho recebido da sociedade, tenho recebido dos prefeitos, dos governadores, dos movimentos sociais, e tenho visto também nas pesquisas que essa questão da reforma política, feita através de consulta popular, é imprescindível como resposta efetiva ao desejo profundo que emanou das manifestações, esse desejo por transformações".

Vendo a popularidade despencar nas últimas pesquisas eleitorais, a presidente citou indiretamente as sondagens para dizer que está com a razão ao propor plebiscito. Dilma admitiu, porém, que não houve clamor ou cobrança nas ruas por uma reforma política. "A gente viu o que era cobrado nas ruas, nos cartazes. Não era cobrado, diretamente, 'faça um plebiscito', ou 'faça uma consulta popular', mas era uma variante disso. Era cobrado mais ética, mais democracia, mais oportunidade de ser ouvido. Acho que, sobretudo, isso: oportunidade para ser ouvido. E isso tudo passa, eu acredito, por uma reforma política", justificou Dilma.

Ao comentar ontem a brusca queda de popularidade de Dilma após os protestos, o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) afirmou que as ações defendidas pela presidente para responder às ruas são "fortes e oportunas". "Eu só espero que a sociedade apoie fortemente e que o Congresso seja sensível e que haja de fato a reforma política, de preferência, com o plebiscito. Foi o que as ruas deixaram de maneira clara demonstrado."

O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, que na crise atuou como conselheiro político da presidente, reconheceu que há muitas dificuldades para se fazer a reforma política. Para ele, os parlamentares não conseguem "trabalhar com mudanças de regras, principalmente em um momento como este, de tempo exíguo". Mercadante lembrou que os ex-presidentes FHC e Lula tentaram fazer uma reforma política, sem êxito.

Prazos. Segundo Vaccarezza, o trabalho do grupo da Câmara poderá se encerrar antes do prazo de 90 dias estabelecido pelo presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). Mas não há possibilidade de as mudanças serem aplicadas na eleição de 2014, quando Dilma tentará a reeleição. Vaccarezza disse que em agosto ele terá uma ideia geral do que será votado. Uma reforma política que altere o sistema já em 2014 teria de ser votada antes de 5 de outubro. "Não cabe a mim fazer demagogia", afirmou o petista, que assumiu a coordenação do grupo após racha da bancada.

O grupo fez ontem a primeira reunião, mas, segundo Vaccarezza, só em 22 de agosto devem ser decididos os temas debatidos na reforma política.

Fim do marqueteiro. Convidado a integrar o grupo depois da desistência de Henrique Fontana (PT-RS), que saiu atacando Vaccarezza, o deputado Ricardo Berzoini (PT-SP) promete causar polêmica. Ontem ele sugeriu acabar com a figura do marqueteiro, fundamental tanto na eleição de Luiz Inácio Lula da Silva quanto na de Dilma Rousseff. "Vamos acabar com a farra dos marqueteiros, porque hoje isso virou um leilão", disse. / COLABORARAM EDUARDO CUCOLO e LAÍS ALEGRETTI

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