Dilma ameaça demitir inimigos do BB

Presidente fica irritada com disputa de poder entre presidentes do Banco do Brasil e da Previ e manda 'roupa suja ser lavada em casa'

JOÃO DOMINGOS / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

29 de fevereiro de 2012 | 03h08

Inconformada com a rede de intrigas oriunda da disputa pelo poder no Banco do Brasil e na Previ, o fundo de pensão do banco, e abastecida de informações de que parte do mercado já estaria tentando tirar proveito da fragilidade que tal situação leva a um setor de alta sensibilidade, a presidente Dilma Rousseff decidiu pôr um fim às brigas. Ela ameaça demitir todo mundo.

De acordo com informações do Palácio do Planalto, Dilma mandou um emissário conversar com o presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, com o presidente da Previ, Ricardo Flores, e com outros executivos envolvidos na pendenga. O recado foi o mesmo usado antes da demissão de outros auxiliares: "Roupa suja se lava em casa".

Ainda conforme informações de bastidores, Dilma teria ficado "horrorizada" ao tomar conhecimento de que circula na Esplanada dos Ministérios um dossiê com a violação do sigilo bancário do ex-vice-presidente do BB Allan Toledo, suposto aliado de Flores e adversário de Bendine.

Toledo foi demitido do BB no fim de novembro por decisão do presidente do Conselho de Administração do banco, Nelson Barbosa, que também é secretário executivo do Ministério da Fazenda. O motivo da demissão, de acordo com informações do governo, foi o fato de Toledo ter se aliado a Flores na briga com Bendine.

Dilma teria comentado com auxiliares que não aceita a repetição do episódio do caseiro Francenildo Costa, que teve o sigilo violado pela direção da Caixa Econômica Federal em 2006, em uma articulação com o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci. O caso levou à demissão de Palocci da Fazenda e de Jorge Mattoso, então presidente da Caixa. Francenildo processou o banco federal, que perdeu a ação e ofereceu um acordo de R$ 500 mil. Ele recusou.

De tão furiosa com as brigas entre Bendine e Flores, a presidente teria dito ainda que a carreira deles no governo federal estaria acabada se não chegarem a um acordo logo. Dilma contabiliza a favor dos dois presidentes o fato de tanto o Banco do Brasil quanto a Previ terem apresentado ótimos resultados do ponto de vista econômico e de gestão.

Nos bastidores, Flores não descarta a hipótese de encontrar Bendine. A avaliação de aliados do presidente da Previ é a de que o escândalo é negativo para os dois executivos.

Irritação. A presidente tem demonstrado preocupação com as rusgas nas diretorias do BB e da Previ há algum tempo. Na sexta-feira passada, determinou ao ministro Guido Mantega que pusesse um fim à disputa, alimentada por grupos do PT que trabalham pelo controle do Banco do Brasil e da Previ. Dilma chegou a lembrar Mantega que as brigas poderiam respingar no governo.

Dilma irrita-se profundamente toda vez que vê uma nota na imprensa a respeito da intensa disputa pelo poder dentro das duas instituições. A ponto de ler os jornais e comentar: "Eu não acredito que isso está acontecendo no maior banco do Brasil e no maior fundo de pensão da América Latina".

Aldemir Bendine e Ricardo Flores foram escolhidos para os cargos por Mantega, ambos ainda no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Os dois fazem parte de um grupo formado no Banco do Brasil nos anos 90, quando a instituição quebrou e precisou ser socorrida pelo governo.

Naquela época, a avaliação era de que o banco estava demasiadamente politizado e era preciso formar quadros técnicos que fossem orientados apenas pela busca de bons resultados para o banco.

Flores substituiu Sérgio Rosa, petista com origem nas alas sindicais. Rosa hoje está na BrasilPrev, uma empresa privada que tem o Banco do Brasil como um dos sócios.

Mãe adotiva. A publicação de dados do dossiê com a violação do sigilo bancário de Toledo foi feita ontem pelos jornais Correio Braziliense e Folha de S. Paulo. De acordo com o dossiê, Toledo recebeu R$ 1 milhão em sua conta ao longo do ano passado.

Advogado de Toledo, o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e ex-deputado José Roberto Batochio disse ao Estado que o dinheiro teve origem na venda de uma casa de Liu Mara Zerey, mãe adotiva do ex-vice-presidente do BB.

Batochio disse que Liu Mara transferiu todos seus bens para Toledo, além de tê-lo feito procurador dela. Como tem câncer e faz quimioterapia, Liu Mara resolveu vender uma casa, cujo procurador era Toledo.

O imóvel foi negociado no dia 21 de janeiro do ano passado - uma entrada e cinco parcelas. O procurador de Toledo disse que seu cliente decidiu processar o Banco do Brasil por violação de sigilo bancário, com pedido para que sejam identificados e punidos os responsáveis pelo vazamento das informações.

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