Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

'Devemos pensar no Brasil e não apenas numa eventual aventura', diz Ana Amélia

Ao Estado, candidata afirmou que sua escolha “complementa” Alckmin

Entrevista com

Ana Amélia, senadora

Filipe Strazzer, O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2018 | 19h10

A senadora gaúcha Ana Amélia (PP) acredita que sua escolha para vice de Geraldo Alckmin (PSDB) não foi para atrair votos de eleitores de Jair Bolsonaro (PSL). Ao Estado, a senadora reafirmou sua identidade com a questão agropecuária e, sem se referir a um candidato específico, disse que não é hora de “pensar numa eventual aventura” para o Brasil.

Defensora da Lava Jato e uma das principais críticas ao PT, Ana Amélia afirmou que é conservadora mas sem um “coração empedernido à direita”. Ela exaltou o trabalho de Kátia Abreu (PDT) no tema agropecuário e sua escolha como vice de Ciro Gomes (PDT) e disse que elogiou Dilma Rousseff (PT) por causa de declarações “agressivas” contra a ex-presidente feitas por Bolsonaro. A seguir, trechos da entrevista:

A senadora é vista em uma posição mais à direita que Geraldo Alckmin, a sra. foi escolhida para atrair votos que seriam de Jair Bolsonaro (PSL-RJ)?

Não creio que eu tenha sido escolhida com esse objetivo. Tem o fato de eu ser mulher, e penso que a minha identidade com a produção agropecuária dá à candidatura Alckmin, que tem uma representação urbana, a confiança de que somos complementares. Hoje um tema crucial é a segurança no campo. O agricultor está sozinho, legado à sua própria sorte. Ano passado, indaguei a Raquel Dodge se não era injusto que o Estatuto do Desarmamento não previsse que agricultores tenham uma arma para se defenderem.


Então a sra. é a favor de armar o agricultor?

Não é armar. Armar é você dar a arma para uma reação. É diferente. É para ter a legítima defesa, o agricultor dentro da casa dele. Não é ele sair dando tiro por aí. Não adianta a legítima defesa estar na Constituição e no Código Penal se isso não acontece. A mesma coisa das mulheres nas eleições. Existe os 30% da cota mas não dão dinheiro para elas fazerem campanha. Do que adianta?

Alas do PP no Rio Grande do Sul tinham declarado apoio a Jair Bolsonaro. Como fica agora o apoio do partido no Estado? A sra. tem medo de alguma traição?

Tenho convicção de que nossos correligionários entenderão as razões pelas quais tomei essa decisão. Tenho recebido a adesão da maior parte dos nosso prefeitos e dos líderes progressistas no Estado. Eu respeito as posições que eventualmente possam ser contrárias, mas acho que essa é uma hora que devemos todos arregaçar as mangas, pensar no Brasil e não apenas numa eventual aventura ou naquilo que possa desaguar em alguma dificuldade para superar os enormes desafios que o País tem pela frente.

A essa ‘aventura’ a sra. se refere ao Bolsonaro?

Entenda como quiser, mas é jogar o Brasil numa crise. Uma crise da ingovernabilidade. Por que o Collor saiu do governo? Não tinha governabilidade. Uma parte do problema da Dilma foi o crime de responsabilidade e a outra foi a governabilidade. Ela foi perdendo apoio da sua base parlamentar pela forma hostil de tratar o Parlamento. Na democracia, por mais defeitos que tenha o parlamento, e o nosso tem muitos, não se pode fazer qualquer coisa a não ser via parlamento. Então, quando eu falo, meu olhar é sobre a governabilidade.

A sra. vê a escolha do Ciro Gomes (PDT) por Kátia Abreu (PDT) como vice na chapa como uma concorrência, sendo ela também uma mulher do agronegócio?

Eu festejo todas as iniciativas que valorizem a participação das mulheres. É inegável o papel que Kátia Abreu teve na defesa da agropecuária. Ela comandou a Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) e foi ministra da agricultura de Dilma Rousseff (PT). A questão do empoderamento das mulheres se dá por atos práticos, não por retórica. O Ciro fez o que deveria ter feito, empoderou uma mulher que conhece bem o agronegócio.

A sra. é vista como mais à direita a Geraldo Alckmin, porém já apoiou Manuela D’Ávila (PCdoB) à prefeitura de Porto Alegre (2012) e fez elogios à Dilma e a Leonel Brizola.

(Rindo) Uma pessoa que é capaz de fazer tudo isso você acha que ela tem um coração empedernido conservador à direita? Eu sou conservadora da ética, da moral, da defesa da operação Lava Jato, da lei da Ficha Limpa - que foi uma iniciativa muito liderada pelas esquerdas e que hoje a própria esquerda renega. Será que a esquerda deixou de ser esquerda por ter renegado a lei da Ficha Limpa? Eu não sou um poste que vive parado num mesmo lugar. Elogiei Dilma Rousseff quando ela foi eleita e o Bolsonaro fez uma declaração deselegante, agressiva. Ele estava no meu partido àquela época e tive uma reação criticando aquela declaração. Tudo tem uma circunstância. O que vale para hoje pode não valer para amanhã.

Como a campanha de Alckmin pretende tratar o candidato Lula (PT)?

O candidato está na mão da Justiça, então não me cabe fazer qualquer tipo de manifestação acerca do assunto. Como agente política, que convivi como jornalista com o ex-presidente, não há nenhum motivo de alegria sincera de ver o que está acontecendo com ele. Mas também entendo que cada um precisa pagar pelos seus atos.


Depois do anúncio da sra. como vice de Alckmin, mais três presidenciáveis escolheram vices gaúchos. Como a sra. vê isso?

Isso é ótimo! Assim meu Estado fica cada vez mais em evidência

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