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Desconforto capital

As capitais e suas periferias são a pedra no caminho dos presidentes brasileiros. Estudo do Estadão Dados e do Ibope mostra que em todas as pesquisas de avaliação presidencial, pelo menos desde 2001, a aprovação do governante é sempre maior no interior. A diferença, porém, varia de presidente a presidente.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2013 | 02h02

Nos dois últimos anos de Fernando Henrique Cardoso, as capitais tinham uma opinião, em média, 13 pontos pior sobre o seu governo do que as cidades do interior. Com Luiz Inácio Lula da Silva, a média caiu para 7 pontos, sempre com a aprovação menor nas capitais - e, não raro, também nos municípios do entorno delas.

O fato de a diferença ser quase duas vezes maior sob FHC demonstra que uma "explicação" aparentemente fácil e óbvia - o Bolsa Família tem muito mais peso no interior - é também falsa. Não se pode debitar essa fatura no assistencialismo petista.

Sob Dilma, a aprovação presidencial tem sido, em média, 8 pontos maior no interior, com picos de 11 pontos. Nada que se compare à média de 13 pontos a menos do tucano nas capitais, com picos de até 20 pontos de diferença. Não é uma questão partidária.

A causa tampouco parece ser a oferta de serviços públicos. No interior faltam mais médicos, e as opções de ensino público são limitadas quase sempre ao Fundamental e, às vezes, ao Médio. Mesmo assim, a satisfação do interior com os presidentes tende a ser maior do que nas capitais e suas periferias.

Talvez a maior boa vontade com os governantes esteja relacionada a alguma característica distintiva dos interioranos. A diferença principal está na educação. Na média, os brasileiros do interior têm escolaridade mais baixa do que os que moram em capitais.

Há pelo menos duas razões para isso: 1) a proporção de pessoas que nunca foram à escola é duas vezes maior no interior, por causa da população rural, o que joga a média interiorana para baixo; 2) a proporção dos que estudaram até a faculdade é 70% maior nas metrópoles, por causa da facilidade de acesso às universidades, o que joga a média das capitais para cima.

Outro fato endossa essa explicação. Assim como o diferencial de aprovação do presidente, os diferenciais educacionais estão diminuindo. A escolaridade no interior cresce mais rapidamente do que nas capitais. A diferença da média de anos de estudo dos municípios do interior em comparação à das capitais caiu um terço entre 2000 e 2010. À medida que o eleitor do interior se torna mais escolarizado, ele fica também mais crítico.

Tudo isso seria mera curiosidade estatística se não estivesse intrinsecamente ligado ao resultado da eleição presidencial. No primeiro turno de 2010, Dilma Rousseff (PT) teve só 40% dos votos válidos nas capitais. Mas se dependesse apenas do interior, a eleição não teria ido sequer ao segundo turno.

Foi nos centros e nas cidades das periferias metropolitanas que Marina Silva teve seu grande desempenho. A então candidata do PV alcançou 28% dos votos válidos nas capitais, quase o dobro do que obteve nos colégios eleitorais do interior do País. Foi a mais votada em Belo Horizonte e Vitória. Mas esse resultado excepcional não se estendeu a José Serra (PSDB).

O tucano teve proporcionalmente menos votos nas capitais do que nos municípios do interior, no primeiro turno. Os resultados abaixo da média tanto de Dilma quanto de Serra já indicavam o desgaste da polarização PT-PSDB nas capitais. Era o embrião do descontentamento com os partidos que viria a ser demonstrado nas ruas das maiores cidades brasileiras três anos depois.

Nas pesquisas para 2014, Marina mantém melhor desempenho nas metrópoles, enquanto Dilma se sai melhor no interior. Caberá a Marina inflar as intenções de voto de Eduardo Campos (PSB) nas capitais. Lula, os marqueteiros e a propaganda oficial já fazem o mesmo por Dilma no interior.

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