FOTO: JF DIORIO / ESTADÃO
FOTO: JF DIORIO / ESTADÃO

Derrotado, Haddad fala em liderar oposição

Em discurso após contagem de votos, petista diz que tem ‘tarefa’ de defender ‘liberdades’

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2018 | 03h00

Derrotado no segundo turno por Jair Bolsonaro (PSL), mas detentor de 47 milhões de votos em sua primeira eleição presidencial, o petista Fernando Haddad se colocou como líder da oposição em seu discurso depois do resultado eleitoral. 

“Temos uma tarefa enorme no País que é, em nome da democracia, defender o pensamento e as liberdades destes 45 milhões de brasileiros. Temos a responsabilidade de fazer uma oposição colocando os interesse nacionais acima de tudo”, disse Haddad, em pronunciamento feito no início da noite de ontem em hotel de São Paulo, antes da divulgação dos resultados finais - que o colocaram com 44,86% dos votos válidos.

O candidato do PT não chegou a fazer uma autocrítica em relação a erros do partido, mas admitiu que, para voltar a “sensibilizar mentes e corações”, vai ter de se reconectar com as bases que elegeram Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e, ontem, escolheram Bolsonaro. 

“Temos de fazer uma profissão de fé de que vamos continuar nossa caminhada conversando com as pessoas, nos reconectando com as bases, com os pobres deste País”, afirmou.

Na sequência, lembrou que dentro de quatro anos “teremos novas eleições”. “Daqui a quatro anos teremos uma nova eleição. Temos de garantir as instituições. Não vamos sair dos nossos ofícios, mas não vamos deixar de exercer nossa cidadania”, disse ele.

Acompanhado da mulher, Ana Estela, dos filhos, mãe, a vice na sua chapa, Manuela D'Avila, e dezenas de apoiadores, Haddad se colocou como defensor de direitos civis, trabalhistas políticos e sociais que, segundo ele, estariam ameaçados com a vitória de Bolsonaro. 

“Nós temos uma nação e precisamos defendê-la daqueles que, de forma desrespeitosa, pretendem usurpar o nosso patrimônio, enganando a democracia não só do ponto de vista formal”, afirmou.

Ao final do discurso de aproximadamente 10 minutos, Haddad exortou seus apoiadores a se unirem na “resistência” às mudanças prometidas pelo presidente eleito. Também emulou o Hino Nacional, ao dizer que se coloca à disposição dos eleitores no próximo período. “Verás que um professor não foge à luta nem teme quem adora a liberdade à propria morte. Nós temos um compromisso de vida com este País.”

Próximos passos

Na quinta-feira passada, quando as pesquisas ainda mostravam a possibilidade de reação de Haddad nas intenções de voto, Lula elencou as tarefas do PT para o período pós-eleitoral na possibilidade de uma derrota para Bolsonaro.

A primeira delas é ouvir Haddad para saber o que o candidato quer fazer a partir de hoje. Dirigentes petistas avaliam que ele será a maior figura do partido depois de Lula, condenado e preso na Lava Jato, mas para se viabilizar como liderança nacional vai ter que superar obstáculos dentro do próprio PT.

“Haddad sai muito grande, mas o que vai acontecer daqui para frente depende do Lula. Ele fica preso? Ele sai? Além disso, Haddad se comportou muito bem como candidato, mas não é um líder”, disse João Paulo Rodrigues, da coordenação nacional do MST. 

Setores do partido defendem que Haddad assuma a presidência do PT no lugar da senadora Gleisi Hoffmann, eleita em 2017. No cargo, o candidato teria um palanque para se manter em evidência no papel de líder da oposição a Bolsonaro. 

A manobra, no entanto, é delicada. Em primeiro lugar é preciso convencer Gleisi. Em segundo, saber se o próprio Haddad aceitaria a empreitada que exigiria disponibilidade de tempo e paciência para manejar os muitos conflitos internos do PT.

Outra tarefa delegada por Lula é manter a coesão do partido. Passada a eleição, Gleisi vai viajar pelos estados para mitigar diferenças surgidas no processo eleitoral. Dirigentes petistas acreditam que Haddad também pode ser importante neste processo. Uma das avaliações correntes é que Haddad, visto como um outsider dentro do partido, conseguiu iniciar um processo de conexão com a militância petista.

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