Deputado prometeu emitir notas fiscais a acusado de fraude

Grampos revelam que Roque Barbiere (PTB) também combinou com empreiteiro maquiagem de obra em Birigui

FERNANDO GALLO, FAUSTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

27 Abril 2013 | 02h05

Escutas telefônicas da Polícia Federal revelam que o deputado estadual Roque Barbiere (PTB), autor da denúncia, feita em 2011, sobre venda de emendas parlamentares por colegas seus na Assembleia Legislativa de São Paulo, combinou com o empresário Olívio Scamatti - acusado de chefiar a quadrilha que fraudava licitações em prefeituras paulistas - que um assessor seu iria procurá-lo para pegar os dados da construtora para poder emitir notas fiscais a ele. O diálogo não deixa claro a que se refere essa transação, mas para os investigadores mostra o grau de proximidade entre o parlamentar e o empreiteiro que está preso há oito dias.

Os documentos indicam que Barbiere foi quem efetuou a ligação, flagrada em 3 de agosto de 2010, às 21h23. O trecho da conversa foi resumido pela polícia: "Olívio pede a Roque que diga a seu assessor ligar para Olívio, para terminarem de organizar aquela situação, pois só está esperando ele mandar os documentos para Olívio. Roque diz que o assessor vai organizar e vai procurar Olívio pessoalmente, que ele vai pedir os dados da empresa para poder emitir as notas. Olívio pede para ele ligar amanhã, para poderem resolver e matar isso. Roque diz que aí já leva as notas feitas".

Barbiere também combinou com Olívio a maquiagem de uma obra que a construtora Demop estava fazendo na rodovia SP-461, em Birigui, base eleitoral do petebista. O motivo: uma visita de campanha eleitoral que o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), à época candidatos, fariam à cidade do deputado três dias depois do diálogo.

As tratativas contradizem o que Barbiere afirmou ao Estado em 10 de abril, quando declarou que o único contato que teve com Scamatti e pessoas relacionadas à Demop foi quando Alckmin já assumira o posto, em 2011. Ele disse que Alckmin mandou revisar os contratos e os empreiteiros ficaram preocupados e o procuraram, razão pela qual ele teria batido à porta da Secretaria dos Transportes.

A polícia sustenta que o deputado pediu a Scamatti que "meta o cacete lá no que estiver parado". "Roque liga para Olívio e pergunta se ele está sabendo que o governador e o Aloysio vem a Birigui na sexta-feira. Olívio diz que Não. Roque diz que eles vão chegar uma hora em Araçatuba e vão pegar uma van e se dirigir para Birigui. Roque diz que eles vão dar uma olhada na obra e depois andar no centro de Birigui com eles. Roque diz que gostaria de pedir a Olívio que, mesmo que não possa estar lá, na sexta-feira meta o cacete lá no que estiver parado, ponha máquina, ponha o c.... Olívio diz que pode deixar com ele. Roque diz que já está impressionado, mas que é preciso impressionar eles (governador e Aloysio) também".

A Demop venceu a licitação para fazer um dos dois lotes da SP-461. Assinou com o governo do Estado um contrato de R$ 31,5 milhões pela obra.

Licença. A assessoria de Barbiere informou que o deputado tirou licença médica de duas semanas e disse que ele estava "incomunicável" e só falaria com a imprensa na próxima semana.

Em 10 de abril, ele disse ao Estado que intercedeu em favor da Demop no governo por se tratar da obra "mais importante da história de Birigui", e disse ter sido procurado por Scamatti porque era "o pai político" da duplicação da rodovia. O advogado de Scamatti, Alberto Zacharias Toron, disse que "acredita plenamente que as acusações, uma a uma, serão refutadas".

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