Delta vai à Justiça para evitar falência

Em pedido judicial para 'recuperar fôlego financeiro', empreiteira diz ser vítima de 'bullying empresarial' e que levou calote de governos

ALFREDO JUNQUEIRA / RIO, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2012 | 03h18

A Delta Construções anunciou, no início da noite de ontem, que entrou com um pedido de recuperação judicial na Justiça do Rio de Janeiro. A medida é um recurso usado por empresas em dificuldades financeiras para evitar a falência. Em nota de sua assessoria de imprensa, a construtora diz ser vítima de "uma espécie de bullying empresarial".

Principal empreiteira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a Delta é alvo de denúncias nos últimos três meses, desde que a Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, revelou ligações entre diretores da construtora e o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

Na sexta-feira, a holding J&F anunciou que havia desistido de comprar a empresa de Fernando Cavendish alegando "crise de confiança e credibilidade". A Delta é alvo da CPI do Cachoeira no Congresso Nacional, tem executivos investigados pela PF e pode ser considerada inidônea pela Controladoria-Geral da União (CGU) - o que a impediria de participar de novas licitações do poder público.

No texto distribuído na noite de ontem, a Delta afirma que "várias administrações públicas estão deixando de honrar os pagamentos de obras já executadas", em razão das notícias do envolvimento de seus executivos em "supostos atos ilícitos".

A empresa afirma que pediu a recuperação judicial mesmo sem ter dívidas trabalhistas, previdenciárias e tributárias. "Os ativos patrimoniais e a receber são muito superiores à dívida atual com fornecedores e bancos", afirma o texto da construtora. A nota ainda ressalta que a empresa é responsável, direta ou indiretamente, pelo sustento de cerca de 80 mil famílias.

'Fôlego'. "A administração da Delta está informando à Justiça que todas as empresas do grupo são viáveis economicamente e possuem ativos relevantes e que estão aptas a efetuar as obras e serviços públicos e privados para os quais foram contratadas. Afirma ainda que pretende honrar suas dívidas de forma integral, mas que necessita do amparo judicial para recuperar seu fôlego financeiro", explica o texto da construtora.

Para cuidar de seu processo de recuperação judicial, a Delta contratou a consultoria internacional Alvarez & Marsal - que já autuou em processos semelhantes com a Varig e a Casa & Vídeo (rede de varejo com sede no Rio). "No cenário internacional, a consultoria trabalhou no caso do banco Lehman Brothers", explica o texto distribuído pela empreiteira.

Obras. A Delta foi a empresa que recebeu o maior volume de recursos do governo federal nos últimos três anos. Foram R$ 2,4 bilhões em obras e serviços nesse período. A construtora tem mais de 300 contratos com 23 Estados e o Distrito Federal. Além de construção civil, a empreiteira atua em coleta de lixo em cidades como Rio e Brasília, concessão de rodovias e construção de linhas de transmissão de energia.

No Rio de Janeiro, onde fica a sede da empresa, a Delta prosperou principalmente a partir da gestão do governador Sérgio Cabral Filho (PMDB). Cavendish e o peemedebista são amigos íntimos. Nas primeira semana de CPI, a divulgação de fotos dos dois e suas respectivas mulheres em festas e jantares na França e em Mônaco tornou o governador fluminense um dos potenciais alvos da comissão. Na semana passada, no entanto, os parlamentares rejeitaram a convocação de Cabral. Nos cinco anos e cinco meses de gestão do peemedebista, a Delta faturou R$ 1,5 bilhão.

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