Delta lembra 'valerioduto', diz oposição

Para líderes, esquema é semelhante ao utilizado por Valério para abastecer partidos no mensalão

JOÃO DOMINGOS , EUGÊNIA LOPES / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2012 | 03h05

Passados seis anos do fim da CPI dos Correios, lideranças da oposição identificaram no "deltaduto" - rede abastecida pela Delta Construções para doações eleitorais por meio de empresas de fachada do grupo do contraventor Carlinhos Cachoeira - esquema semelhante ao utilizado pelo empresário Marcos Valério para enviar dinheiro aos partidos aliados ao governo, o que deu origem ao escândalo do mensalão.

Diante das evidências e apesar de até o momento o governador tucano Marconi Perillo (GO) aparecer como beneficiário do suposto esquema, a oposição já se mobiliza para tentar aprovar na CPI do Cachoeira, criada ontem, requerimentos para que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) envie ao Congresso toda a movimentação bancária da Delta e de seu dono, o empresário Fernando Cavendish. "Há semelhança gritante entre o que já foi divulgado a respeito da Delta com o que apuramos ao investigar o mensalão", disse o líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR).

O "deltaduto", como revelou ontem o Estado, irrigou a campanha de Perillo ao governo de Goiás. Mas, como a empresa atua nacionalmente e o grosso de seus contratos é com o governo federal e com o Estado do Rio - cujo governador, Sérgio Cabral (PMDB), é aliado do Planalto -, a oposição enxerga potencial de desgaste na operação. A criação da CPI foi formalizada ontem no Congresso. Com a assinatura de 337 deputados e 72 senadores, o requerimento foi lido pela presidente em exercício do Congresso, Rose de Freitas (PMDB-ES), numa sessão lotada, em que governo e oposição pareciam comemorar o início das investigações que vão apurar o esquema de tráfico de influência montado por Carlinhos Cachoeira.

Indicações. Os partidos têm até terça-feira, dia 24, para indicar os nomes dos parlamentares que integrarão a CPI, que deverá ter sua primeira reunião na quarta-feira, dia 25, quando será eleito o presidente e escolhido o relator. O PMDB indicou e a presidência deverá ficar com o senador Vital do Rêgo (PB). O relator é nomeado pelo presidente após acordo. O cargo é disputado por petistas, sendo Odair Cunha (MG) o favorito.

Além de requerimentos ao Coaf, a oposição também se prepara para pedir a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Cavendish e da Delta, de seus sócios e de supostos laranjas. Já os governistas pregam cautela. Defendem que, antes de qualquer convocação ou aprovação de requerimento, seja feita a análise dos documentos produzidos pelas operações Vegas e Monte Carlo, ambas da Polícia Federal.

"Não é preciso pressa. Temos de ver os documentos da PF e assim fazer nossa programação", disse o líder do PT no Senado, Walter Pinheiro (BA). "Não pode ter pirotecnia. Não pode chamar já na primeira semana o dono da Delta", disse o líder do PT na Câmara, deputado Jilmar Tatto (SP). "Temos de conhecer primeiro os documentos que já existem", argumentou.

O temor dos aliados é o de que a CPI acabe "drenando a energia" do Parlamento e deixe de lado a apreciação de projetos considerados importantes pelo Planalto. "A gente não vai cometer o erro", disse o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP). "É preciso ter atitude sóbria de ambos os lados e não pode haver vazamento seletivo de informações", afirmou. "Os envolvidos é que têm de se defender."

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