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Deletar e recomeçar

Quem assumir a Presidência receberá pelo menos uma herança  bendita: a lição do fracasso. Se souber usá-la, evitará uma  porção de erros. Seu primeiro desafio será criar condições para o crescimento e, ao mesmo tempo, limpar a bagunça, domando a inflação e arrumando as contas públicas. Precisará  cuidar com especial atenção da indústria, o setor mais  afetado nos últimos anos pelas deficiências estruturais - como a logística ruim, a tributação paralisante e o baixo padrão educacional.

Rolf Kuntz, O Estado de S. Paulo

07 de setembro de 2014 | 22h00

Nenhuma doença holandesa corrói a indústria. A valorização cambial pode ter atrapalhado as empresas, mas nenhum analista sério - das próprias entidades empresariais - atribui a esse fator mais importância que à baixa  produtividade geral do País.

Também o agronegócio, o setor mais competitivo, é prejudicado por aquelas deficiências, como indicam, por exemplo, as dificuldades para levar a produção ao porto. 

Mas o setor continua eficiente e, para manter sua posição, precisará de novas tecnologias. Apoiar esse esforço por meio da pesquisa será uma das grandes tarefas do governo. 

A política oficial terá de proporcionar a todos os setores condições para se modernizar, ganhar produtividade e competir no mercado internacional. 

Isso deverá incluir apoio à inovação, política educacional  voltada para a inclusão produtiva (em vez de focada na distribuição de diplomas de faculdade), melhor gestão do  investimento público e mais estímulo ao investimento privado.

Benefícios fiscais e financeiros a setores e a grupos  selecionados fracassaram. Será preciso seguir outro caminho para levar o investimento, em poucos anos, a uns 25% do Produto Interno Bruto (PIB). Outros emergentes investem mais que isso. 

No segundo trimestre de 2014, o investimento em capital fixo - máquinas, equipamentos, instalações e infraestrutura - ficou em 16,5% do PIB, uma taxa vergonhosa para um país em desenvolvimento.

Depois de quatro anos com crescimento anual médio abaixo de 2%, será necessário cuidar de todas as grandes tarefas desde o primeiro dia. O governo gastará dois ou três anos para  ajeitar suas contas. Terá de elevar o superávit primário, o dinheiro separado para o pagamento de juros, para uns 2,5% a  3% do PIB.

Será indispensável apresentar resultados limpos, sem os  truques da contabilidade criativa. Dar credibilidade à  gestão fiscal será decisivo para facilitar e baratear o financiamento das contas públicas. 

Será obrigatório abandonar truques e voluntarismo. Decisões improvisadas e impostas na marra desorganizam a economia e geram custos enormes. Isso ocorreu com o controle das  tarifas de eletricidade, a renovação das concessões das elétricas e a contenção política dos preços de combustíveis. 

Nenhum truque impediu a inflação de continuar elevada. Para combatê-la, o melhor é nomear um bom presidente de Banco Central e deixá-lo trabalhar. Uma boa gestão das contas  públicas eliminará um importante foco inflacionário. 

Será bom cuidar desde o primeiro ano das mudanças mais complicadas, como a tributária. Uma reforma séria envolverá alterações importantes no Imposto sobre Circulação de  Mercadorias e Serviços (ICMS). A Presidência da República terá de se envolver na negociação com os governadores. Além disso, terá de vincular a mudança a objetivos realmente nacionais, como redução de custos e aumento da eficiência  econômica.

Composições políticas serão inevitáveis, mas o governante eleito deverá mostrar firmeza para desmontar o loteamento do setor público e revalorizar a competência. Além disso, terá  de resistir à tentação de submeter a administração a objetivos político-partidários, como se fez com a Petrobrás.

Também o terceiro-mundismo requentado, em vigor a partir de  2003, custou caro. O País perdeu oportunidades e ficou fora dos acordos comerciais realmente importantes. O Brasil ganhará se a diplomacia redescobrir o pragmatismo e os interesses nacionais de longo prazo.

Breve resumo geral: deletar os erros e recomeçar. 

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