Defesa de Roberto Jefferson afirma que Lula ‘ordenou’ mensalão

Advogado do pivô do escândalo culpa ex-presidente por pagamento de parlamentares e diz que dinheiro recebido pelo PTB serviu para quitar dívidas de campanha

Felipe Recondo, Mariângela Galluci, Ricardo Brito e Eduardo Bresciani, de O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2012 | 03h04

BRASÍLIA - A defesa do presidente do PTB, Roberto Jefferson, sustentou nessa segunda-feira, 13, aos ministros do Supremo Tribunal Federal que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva "ordenou" o mensalão. Luiz Francisco Corrêa Barbosa, advogado do ex-deputado que denunciou em 2005 a existência de pagamentos a parlamentares da base governista, cobrou a inclusão de Lula no processo e disse que a não citação de seu nome na denúncia é uma "omissão dolosa" do procurador-geral da República, Roberto Gurgel.

"É claro que Sua Excelência não poderia afirmar que o presidente fosse um pateta, um deficiente, que sob suas barbas isto estivesse acontecendo e ele não sabia de nada", afirmou Barbosa referindo-se a Gurgel. O defensor ainda citou uma frase do ministro do STF Marco Aurélio Mello dita em entrevista ao Estado na semana passada, segundo a qual o ex-presidente é "safo". "O presidente é safo (...) Mas é um pateta? É claro que não. Não só sabia como ordenou o desencadeamento de tudo isso. Sim, ele ordenou", disse o advogado.

A linha de defesa de Jefferson no julgamento do mensalão contradiz suas primeiras declarações sobre o escândalo. O ex-deputado costumava dizer que Lula era "inocente". Concentrava suas acusações no ex-ministro da Casa Civil José Dirceu.

No STF, o discurso mudou. Barbosa tentou incluir o nome do ex-presidente no processo em outras ocasiões. Todos os pedidos foram rejeitados sob o argumento de que tal pedido era apenas uma manobra par tentar atrasar o julgamento do caso.

Para o advogado, as "falhas" nas investigações, que na sua opinião deixaram Lula de fora, poderão promover um "festival de absolvições" no julgamento. Barbosa afirmou ainda que Gurgel "ficou sentado" por três anos sobre as investigações do envolvimento do ex-senador Demóstenes Torres com o contraventor Carlinhos Cachoeira, numa referência à Operação Vegas da Polícia Federal. O procurador não comentou a exposição oral do advogado.

Barbosa admitiu que o cliente recebeu recursos do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, apontado como operador do mensalão, mas disse que a verba foi usada para arcar com dívidas da campanha de 2004.

No total, conforme as investigações da procuradoria-geral, o presidente do PTB recebeu R$ 4 milhões como parte de um acordo de R$ 20 milhões firmado entre o PT e o PTB. Por esse fato, Jefferson é acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Conforme a defesa, ele não sabia que o dinheiro repassado pelo PT por intermédio de Marcos Valério tinha origem ilícita. Por isso, não poderia ser acusado de lavagem de dinheiro. Como o dinheiro era para campanha e não para apoiar projetos de interesse do governo Lula, na visão do advogado, Jefferson não poderia ser acusado de corrupção passiva.

Outro advogado a citar o nome do ex-presidente nessa segunda foi Bruno Alves Pereira de Mascarenhas, defensor do ex-deputado federal pelo PL (hoje PR) Carlos Rodrigues, o Bispo Rodrigues. Ao repetir a tese de caixa 2, ele disse que os R$ 150 mil que recebeu do esquema em 2003 foram usados para pagar dívidas da ajuda que deu a Lula no segundo turno da campanha presidencial do ano anterior.

Lula não comentou as declarações do advogado de Jefferson. Como vem fazendo desde o início do julgamento em Brasília, ele passou o dia no instituto que leva seu nome, no bairro Ipiranga, em São Paulo. O senador paraguaio Alberto Grillon Conigliaro, que visitou Lula nessa segunda, disse que o ex-presidente está "acompanhando" o julgamento e se mantém "tranquilo, muito seguro". / COLABOROU JOSÉ MARIA TOMAZELA

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