WILTON JUNIOR/ESTADÃO
WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Declarações de Dirceu colocam PT na defensiva

Sigla repreende ex-ministro e vê prejuízo para o candidato à Presidência do partido, Fernando Haddad, na reta final do 1º turno

Marcelo Godoy e Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2018 | 05h00

Dirigentes do PT repreenderam o ex-ministro José Dirceu em razão de suas últimas entrevistas, nas quais o petista afirmou que seria uma questão de tempo “para a gente tomar o poder”, além de querer retirar o poder de investigação do Ministério Público e de restringir o papel do Supremo Tribunal Federal (STF) ao de uma Corte constitucional no País.

Um interlocutor afirmou que no partido a avaliação é de que o ex-ministro está “falando demais”. Além da reação dos dirigentes, a campanha de Fernando Haddad, o presidenciável petista, quer distância das declarações polêmicas de Dirceu – solto em junho pela Segunda Turma do STF após ser condenado em segunda instância na Operação Lava Jato. As falas causaram irritação pelo momento em que foram feitas – a reta final da campanha – e por obrigar a candidatura de Haddad a uma postura defensiva. Dirceu, segundo outro dirigente, quer “mostrar uma importância que não tem”.

A ordem é dizer que o papel do ex-ministro é zero na campanha e evitar que suas declarações tenham impacto na campanha de Haddad, como as de auxiliares do principal oponente do PT, o candidato do PSL, Jair Bolsonaro.

Nesta segunda-feira, 1.º, em São Luis, Dirceu tratou da polêmica. Ao lançar o primeiro volume de sua biografia, ele afirmou que usou uma expressão “infeliz”. “Porque dá condições para se explorar como se eu tivesse falando que existe uma coisa que é ganhar eleição e outra coisa que é tomar o poder. Eu estava respondendo no caso de um golpe.”

Em entrevista ao jornal El País, o ex-ministro respondeu à pergunta sobre se havia possibilidade de o PT ganhar a eleição, mas não levar. Disse que achava improvável, que a comunidade internacional não aceitaria. E completou: “E dentro do País é uma questão de tempo pra gente tomar o poder. Aí nós vamos tomar o poder, que é diferente de ganhar uma eleição”.

Viagens. Dirceu iniciou um périplo pelo Brasil em 4 de setembro para lançar a biografia. “E como sempre, vou fazer política, que ninguém é de ferro”, disse na ocasião. Percorreu 11 capitais. Começou a viagem de carro. Está em companhia da mulher, da filha menor e do editor de seu livro, o jornalista Luiz Fernando Emediato, dono da editora Geração. 

Na Bahia, a editora alugou um ônibus leito na empresa Corumbal. “É uma pequena empresa que tem oito veículos comumente alugados para bandas de música”, afirmou Emediato. O ônibus que leva Dirceu havia sido usado antes por uma banda de axé.

A rotina do ex-ministro é de encontros com a militância petista, entrevistas para jornalistas locais e sessões de autógrafos. A receptividade de Dirceu entre o público lulista pode ser medida pelas vendas do livro – cerca de 25 mil exemplares até o momento.

Ao mesmo tempo, a rejeição a Dirceu pode explicar a forma escolhida por ele para viajar. No ônibus leito, o ex-chefe da Casa Civil pode escapar ao incômodo de hostilidades, geralmente registradas por meio de telefones celulares em aviões.

O ônibus não impede, no entanto, que o ex-ministro tenha de pensar em estratagemas: para ir a restaurantes sem ser incomodado, Dirceu usa um chapéu e óculos escuros. Ele esteve em todas as capitais do Nordeste, região-chave para Haddad. Nesta segunda-feira, deixou São Luís (MA) e foi para Belém (PA), último ponto antes do primeiro turno das eleições. 

Enquanto espera a definição da Justiça, Dirceu escreve outros dois livros: um sobre o sistema penal e um romance sobre a luta armada.

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