Debate: A decisão de Dilma trará prejuízo para o Brasil?

Sim - Roberto Gianneti da Fonseca*

18 de setembro de 2013 | 02h04

Foi um absurdo suspender a visita. A decisão empurra o diálogo bilateral para uma agenda negativa e prejudica a parte positiva, centrada na discussão de temas multilaterais, como o necessário impulso à Organização Mundial do Comércio (OMC), na maior parceria entre Brasil e EUA e no debate sobre questões de propriedade intelectual. O fato de haver espionagem não traz surpresa nenhuma. Infelizmente, a espionagem é a regra do jogo atualmente. O importante seria saber se, a partir da espionagem realizada, houve dano ao interesse do Brasil. Até agora, isso não foi evidenciado.

A decisão do Palácio do Planalto demonstrou uma visão muito miúda da relação bilateral. A visita de Estado da presidente Dilma Rousseff abriria a possibilidade de, finalmente, os dois países assinarem um acordo de eliminação da bitributação. O Brasil poderia ser retirado da lista de observação da seção especial 301, que trata da pirataria. O setor privado dos dois países já tinha uma pauta pronta para dar impulso a partir de outubro, agenda que será atrasada por causa da suspensão. A presidente Dilma foi mal aconselhada e tomou uma decisão ruim.

*Roberto Gianneti da Fonseca é diretor do departamento de relações internacionais da Fiesp

Não - Rubens Ricupero*

No fundo, a suspensão foi um bom pretexto para a presidente Dilma Rousseff porque a visita fora cogitada no começo de seu mandato, quando a abordagem prevalecente era de uma nova fase na relação entre Brasil e EUA e de superação dos atritos acumulados no governo anterior. Mas esse objetivo não foi alcançado até hoje. Se fosse mantida, a visita seria, na verdade, uma peça de marketing, um meio de fingir que um país abraçava o outro. Essa construção falaciosa tornou-se inviável com a denúncia sobre a espionagem americana no Brasil e com a dúvida dos EUA se o País pode ou não ser considerado amigo.

Para Obama, a visita não seria relevante. Para a presidente Dilma, será um alívio não ter de ir a Washington. Ela não teria como capitalizar essa viagem. A suspensão da visita, na verdade, trará ganhos para Dilma junto a seu eleitorado, que é mais nacionalista. Se houvesse vontade política dos dois lados, haveria uma solução. Os diplomatas são criativos. Inventariam algo como a "construção do processo de confiança" bilateral, e a visita ocorreria. Não há nada a lamentar. Nada será perdido.

*Rubens Ricupero é diretor do departamento econômico da Faap e ex-embaixador do Brasil em Washington

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