Debaixo de sol, grupo fiscaliza prefeituras no Piauí

Há 12 anos, instituição percorre cidades, a pé, para verificar o andamento de obras públicas

Lilian Venturini, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2013 | 02h04

Para alguns moradores de Teresina, o combate à corrupção se faz sob o sol. Por 14 dias, um grupo de 40 pessoas percorreu, a pé, 150 quilômetros pelo sertão piauiense para fiscalizar obras públicas e verificar se o dinheiro foi aplicado como deveria. Há 12 anos, essas caminhadas se repetem, e os maus exemplos também.

"Nosso trabalho é muito audacioso. Vamos a cidades de coronéis. São lugares em que nem o século 20 chegou", conta o advogado Arimateia Dantas, de 51 anos, coordenador da Força Tarefa, instituição formada por representantes da sociedade civil. O foco da fiscalização são as prefeituras e, neste ano, o grupo foi a seis cidades, algumas das mais afetadas pela seca.

Nelas encontraram poços desativados e construção de adutoras paradas ou nem sequer iniciadas. "O sofrimento que o povo passa poderia ser evitado. Em alguns lugares tem água e há recursos. Não há vontade política", afirma Dantas.

Em Guaribas, cidade onde foi lançado o programa Fome Zero em 2003, o memorial construído para ser um tipo de museu do programa está abandonado. O que hoje é um depósito de computadores e móveis quebrados custou R$ 1 milhão ao governo do Estado. A prefeitura diz aguardar o repasse formal do prédio para a administração local. Procurada, a assessoria do governo estadual não se pronunciou.

Depois de quilômetros caminhados e de visitas a ao menos 85 cidades, a Força Tarefa conseguiu fazer com que obras esquecidas fossem entregues e viu prefeitos irem pessoalmente à praça do município prestar esclarecimentos. "Você pode imaginar um prefeito numa época não eleitoral dando satisfação pro povo? Isso não estava na minha utopia", diz Dantas.

Em todas as caminhadas, o grupo também ensina aos moradores como se tornar um fiscal. "O desafio é manter isso. Não é nem encontrar a corrupção, mas fazer o povo compreender que esse é o caminho mais saudável da política", afirma.

O resultado da caminhada deste ano vai ser registrado em relatório a ser entregue aos órgãos fiscalizadores do Estado, em audiência pública marcada para novembro.

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