De saída, presidente da Câmara impõe pauta incômoda ao Planalto

Petista tenta marcar posição com projetos contrários à orientação de Dilma; lista é chamada de 'Calendário Maia'

DENISE MADUEÑO , VERA ROSA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2012 | 02h03

Com fim de mandato próximo, o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), corre para aprovar projetos populares e deixar uma marca, mas sua atuação incomoda a presidente Dilma Rousseff. Em conversas reservadas, ministros batizaram a pauta estabelecida pelo petista de "Calendário Maia" e muitos contam os dias para que ele deixe o cargo.

Depois que a Câmara aprovou projeto para redistribuir royalties do petróleo entre todos os Estados e municípios, Maia está determinado a levar ao plenário, a partir de hoje, a proposta que acaba com o fator previdenciário. O mecanismo define o valor das aposentadorias pagas a trabalhadores vinculados ao INSS e a ameaça da extinção preocupa o governo.

"O 'Calendário Maia' não é necessariamente igual ao 'Calendário Dilma'", disse o líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto (SP), futuro secretário municipal dos Transportes de São Paulo.

Em recente reunião com Maia, a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, expôs a contrariedade do Planalto a mudanças no sistema previdenciário. Não adiantou. "É um assunto polêmico, e o que buscamos é um entendimento para diminuir a injustiça contra os que trabalham com carteira assinada", insistiu Maia.

O fator previdenciário leva em conta o tempo de contribuição, a idade e a expectativa de vida do empregado, o que faz com que ele precise trabalhar mais tempo para receber o teto do benefício, de R$ 3,9 mil. O governo chegou a negociar projeto alternativo para o acordo, mas recuou depois. A proposta que deve ir a votação - com o apoio da CUT e da Força Sindical - substitui o fator previdenciário pela fórmula 85/95, na qual o benefício atinge o valor máximo quando a soma da idade e do tempo de contribuição for de 85 anos para mulheres e de 95 para homens.

Maia diz não haver estresse na relação com o Planalto, mas quem acompanha os bastidores do governo tem impressão oposta. Dilma ficou furiosa com a insistência de Maia em tratar da mudança nos royalties agora, mesmo sem consenso. Para evitar mais desgaste, a presidente avalia a possibilidade de sancionar o projeto sem vetos.

Plano futuro. Interlocutores de Dilma afirmam que o petista cria dificuldades, no fim de sua gestão, porque está desgostoso e quer demonstrar força. Ele nega. Não são de hoje, porém, comentários de que Maia gostaria de ocupar um ministério ou pôr um aliado no primeiro escalão. Agora, seu plano seria disputar a presidência do PT, em novembro de 2013, contra Rui Falcão. "Se alguém disse isso, só pode ser assessor bagrinho", reagiu Maia, que se sentou na cadeira de Dilma pela quarta vez, na sexta-feira, quando ela e o vice-presidente, Michel Temer (PMDB), estavam no exterior. "Se fôssemos escutar tudo o que dizem por aí, não faríamos nada, não trataríamos de nenhum tema."

Embora seu mandato se encerre em 1.º de fevereiro, ele tem só até 22 de dezembro para levar projetos ao plenário porque, depois, o Congresso entrará em recesso. A profecia do "Calendário Maia" prevê um grande acontecimento que acabará com o mundo em 21 de dezembro - 21/12/12. Não sem motivo opositores de Maia no PT dizem que ele quer emplacar uma "pauta do fim do mundo".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.