VERA ROSA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2012 | 02h09

Condenado a nove anos e quatro meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal, o deputado João Paulo Cunha (PT-SP) quer voltar a estudar Direito justamente na faculdade do ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, um de seus algozes no processo do mensalão. Gilmar é sócio-proprietário e professor do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), desde 1998, e João Paulo está interessado em se matricular lá.

"Fiz uma consulta ao IDP", disse ele ao Estado, revelando o interesse em voltar aos bancos escolares se conseguir reverter sua punição do regime fechado para o semiaberto.

Gilmar também é coordenador pedagógico da faculdade, que tem em seu corpo docente Teori Zavascki, o último ministro do STF nomeado pela presidente Dilma Rousseff. Teori não participou do julgamento do mensalão.

Com o voto de Gilmar, o Supremo condenou João Paulo, ex-presidente da Câmara, e outros dois deputados - Valdemar Costa Neto, do PR, e Pedro Henry, do PP - à perda automática de mandato. Para piorar a situação, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, pediu anteontem ao STF a prisão imediata dos réus condenados no mensalão, caso de João Paulo e do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, entre outros.

A decisão sobre o pedido de Gurgel será anunciada hoje pelo presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, mas João Paulo tenta desviar do assunto. Faz planos para o futuro e diz acreditar na revisão da pena. Sem saber o seu destino, quer se matricular ao mesmo tempo em duas faculdades de Direito, uma em Brasília e outra em São Paulo.

"Eu acho que nós acabamos, passamos. Temos de virar a página e a nova geração vai carregar o projeto do PT. Mas eu pretendo terminar o curso de Direito", afirma o ex-presidente da Câmara, que diz estar preparado para enfrentar a prisão. Com esse cenário no horizonte, ele também se informou sobre o ensino à distância. Como sempre gostou de poesias, tendo algumas de sua lavra, o deputado está na dúvida entre os cursos de Filosofia e Literatura.

João Paulo cursou até o terceiro ano de Direito no Centro Universitário Fieo (Unifieo), em Osasco. Mais magro, com olheiras profundas, o petista que presidiu a Câmara entre 2003 e 2005, no primeiro mandato do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirma acreditar no sucesso do recurso ao STF para a diminuição de sua pena. A hipótese do regime semiaberto lhe permitiria voltar a estudar, apesar de ser obrigado a dormir na cadeia.

Mesmo se perder o mandato em 2013, João Paulo garante que não desistirá do plano de retornar aos bancos escolares. Nesse caso, porém, diz que a opção será estudar Direito em São Paulo, provavelmente na Universidade Paulista (Unip).

O ex-presidente da Câmara alterna momentos de otimismo com desilusão. Ora diz confiar na mudança de sua pena, ora mostra ceticismo. Amigo de Lula e um dos fundadores do PT, o deputado condenado no mensalão pelos crimes de corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro agora foge dos flashes dos fotógrafos e prefere reuniões reservadas a aparições públicas. Mas tem participação ativa nas articulações da corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), grupo de Lula e de José Dirceu.

'Batata quente'. Embora o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), diga que cabe à Casa, e não ao STF, a prerrogativa de cassar os mandatos parlamentares, a "batata quente" não ficará com ele. Motivo: Maia está de saída e o novo comandante da Casa será eleito por seus pares em 4 de fevereiro de 2013.

"Fomos nós que fizemos a Constituição e sabemos o que está escrito lá", comentou o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), líder do PMDB e o mais cotado para presidir a Câmara, numa indicação do que pretende fazer.

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