Da agência bancária ao Palácio de Versalhes

A trajetória de Rosemary Noronha, de gerente de banco ao alto escalão do funcionalismo

FERNANDO GALLO, JULIA DUAILIBI, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2012 | 02h02

Tudo estava pronto para a inauguração da terceira Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de São Bernardo do Campo, em 10 de setembro de 2010, quando um integrante do cerimonial da Presidência da República chegou para avisar a equipe da Prefeitura que não haveria mais queima de fogos durante o evento.

"A Rose não quer", alegou um assessor do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que informou ter recebido a orientação da chefe de gabinete do escritório da Presidência em São Paulo, Rosemary Nóvoa de Noronha. Ainda de acordo com o funcionário, Rose afirmou que Lula "não gostava de fogos de artifício".

Alguém correu para avisar o prefeito Luiz Marinho (PT), amigo do ex-presidente desde os anos de sindicalismo e cuja equipe havia organizado a comemoração. "Não vai ter o c.... a Rose não manda nada!", devolveu Marinho, irritado. A queima de fogos ocorreu e não há registro de Lula ter reclamado.

A cena compõe relatos envolvendo a ex-assessora da Presidência, feitos por petistas ao Estado no decorrer da semana passada. A história de São Bernardo ilustra a avaliação difundida entre quadros do partido sobre a forma de Rose atuar: era uma servidora arrogante, que tratava mal seus subordinados, mas simpática e acessível a quem lhe interessava. Não trocava muitas palavras com os vereadores e prefeitos que recorriam ao escritório da Presidência, mas esbanjava simpatia com os ministros que por lá passavam.

De gerente de banco na agência onde Lula tinha conta na região do ABC paulista, no começo dos anos 90, Rose chegou ao alto escalão do funcionalismo e passou a ser paparicada pela burocracia de Brasília, que compreendeu que ela se tornara uma peça importante no xadrez do poder.

Depois de conhecer Lula, Rose foi levada pelo ex-presidente para trabalhar no diretório nacional do PT com José Dirceu, então secretário-geral do partido. Organizada, diligente e eficiente, cuidava das agendas, marcava reuniões e fazia contatos políticos. Vestia-se de maneira austera e não era militante petista. Com formalidade, tratava a todos por "senhor" e "senhora".

Com a vitória de Lula em 2002, sonhou em trabalhar no Palácio do Planalto. Dirceu e o presidente eleito acharam melhor mantê-la em São Paulo - Rose tinha fama de ser explosiva, muitas vezes. Foi, então, convidada, em 2003, a integrar a equipe da Presidência em São Paulo, como assessora especial. Mas a funcionária queria chefiar o escritório. Em 2006, Lula e Dirceu convenceram José Carlos Espinoza, assessor próximo de Lula, a abrir mão da chefia de gabinete em favor dela.

À frente do cargo, Rose tinha uma caneta sem peso nenhum e cuidava de gerir uma burocracia menor e dar cabo de problemas, aproveitando-se da relação de intimidade com Lula. "Eu resolvo! Luiz Inácio resolve!", dizia.

No escritório da Presidência, na sede paulista do Banco do Brasil, passou a ser cortejada pela cúpula da instituição. Rose se aproximou de Ricardo Oliveira, que foi vice-presidente de Governo do BB e ligado ao ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência. Com ele, conheceu a hierarquia da instituição e chegou a trabalhar para emplacar o atual presidente, Aldemir Bendine. Também conseguiu cargos em agências reguladoras para os irmãos Paulo e Rubens Vieira, presos pela Polícia Federal na Operação Porto Seguro.

Pela relação com Lula - viajou para 24 países com o ex-presidente em missão oficial - era procurada por membros do governo para tê-la como aliada. O ex-ministro Antonio Palocci foi um deles.

A funcionária era paparicada também por empresários. Em 2010, foi convidada pela RedeTV! para viajar a Paris, onde participou de comemorações do acordo entre a emissora e um grupo de comunicação. Fez a viagem com o namorado, João Vasconcelos, e participou de um jantar de gala para poucos no Palácio de Versalhes.

A ex-assessora gostava de demonstrar sua proximidade com o ex-presidente. No carnaval deste ano, quando o ex-presidente desfilaria na Gaviões da Fiel, Rose fez uma exigência para os organizadores: queria desfilar no mesmo carro que Lula. Não conseguiu. Levou uma credencial para a avenida. E Lula não foi ao desfile.

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