Da abstenção e seus vazios

Tornou-se hábito dizer que PSDB e PT são as principais forças políticas de São Paulo. Uma leitura voltada, porém, para a qualidade da democracia pode relativizar esse entendimento. O eleitorado paulistano é imenso, corresponde a 6,2% do eleitorado nacional; 8.619.170 indivíduos aptos a votar. Contudo, 1.592.722 (18,5%) se abstiveram, 381.407 (4,4%) votaram em branco e 516.384 (6%) anularam; 2.490.513 eleitores esquivaram-se do mais elementar direito da democracia. O cardápio talvez não ajudasse, mas o fato é que 28,9% do eleitorado, apto, não escolheu ninguém.

CARLOS MELO É CIENTISTA POLÍTICO. PROFESSOR DO INSPER, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2012 | 03h08

O voto, não custa lembrar, é obrigatório. Seriam os mais novos e os mais velhos, liberados da obrigação? Equivaleria admitir o fracasso, incapaz de atrair e envolver. Não parece crível, pelo menos não totalmente. Ademais, nulos e brancos somam quase 900 mil votos, mais de 10%, e evidenciam o protesto. A Justiça Eleitoral considera apenas os votos "válidos", um contingente de 6.128.657 eleitores; torna os números róseos: José Serra com 30,75% e Fernando Haddad com 28,98% dos votos válidos. O potencial real do eleitorado é, contudo, ignorado. Quase um terço foi pelo ralo.

Ao considerá-lo, no entanto, chega-se a números menos animadores: José Serra terminou o primeiro turno com modestos 21,87% dos votos e Fernando Haddad, com 20,61%. Distantes do eleitorado que simplesmente não votou (28,98%), levaram uma goleada: a maior força individual da cidade foi a abstenção, em todas suas modalidades.

Serra e Haddad atingiram 42,5% do eleitorado total, somando 3.661.166 votos. A distância poderia ser medida em léguas: as duas maiores forças, capazes de monopolizar eleições na cidade, no Estado e no País, ficaram 15% aquém dos 57,5% dos demais eleitores - os que não votaram nem em um, nem em outro. Nesse vazio, caberia um outro Russomanno -1.324.021 votos, 15,3% dos votos válidos. Quase seis eleitores aptos, em cada dez, não votaram nem em Serra, nem em Haddad. A imensa maioria não é tucana, nem petista. Dado o nível da discussão entre os dois partidos, não deixa de ser um alento.

Verdade que esse fenômeno se repete em vários cantos do País. No Rio de Janeiro, 55,5% do eleitorado apto não votou em Eduardo Paes, eleito no primeiro turno. No Brasil, 25,8% do eleitorado - 35.674.026 de eleitores - absteve-se, anulou ou "branqueou". É como se, com muita sobra, todo o eleitorado do Estado de São Paulo (31.253.317 eleitores) não fosse às urnas. No mundo todo a participação declina; problema dos eleitores ou dos partidos? Cabe repetir: no caso brasileiro, o voto é obrigatório.

Não é exagero afirmar que, em São Paulo, os principais partidos são apenas os mais representativos dentre os pouco representativos. A elite que se debate em torno deles - nas redes sociais, por exemplo - se ilude; fala de si e para si. A polarização é real? Os números não a comprovam. Parece, antes, se tratar de disputas voltadas à ocupação de espaços no Estado, descoladas da maioria. Felizmente, a maioria não se move com o combustível dessas disputas, embora tucanos e petistas suponham ser o centro do universo.

O desafio para José Serra e Fernando Haddad seria, então, expandirem-se para além das fronteiras de suas tribos, de seus becos ideológicos e restritas bases; resgatar a política, entender e abraçar a cidade mais real e ancha. O segundo turno, no entanto, não começa com esta perspectiva. Neste início de campanha, conflitos se repetem e até se aguçam: mensalão do PT, renúncias de Serra, religião, privatizações e, agora, a ênfase no "kit gay". Propaganda, desqualificação e medo: personagens da Santa Inquisição rondando a cidade, num medievalismo recorrente: pastores que não trazem a luz, mas as sombras. São Paulo merecia mais. Enquanto não se discutirem os reais problemas da cidade, sua disfuncionalidade crescente, cerca de um terço do eleitorado preferirá ficar ausente. É desses vazios que se alimenta o sistema político.

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