Cunha deve excluir jornalista e procurador-geral de relatório

Sabendo que não dispõe de votos para aprovar o texto, relator da CPI admite renegociar seus pontos mais polêmicos

EUGÊNIA LOPES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h02

Sem chances de conseguir aprovar seu relatório na íntegra, o deputado Odair Cunha (PT-MG) está decidido a retirar pontos polêmicos do texto final com as conclusões das investigações da CPI do Cachoeira. Lideranças dos partidos aliados e de oposição já avisaram que o relatório não tem chance de ser aprovado com o pedido para que o Conselho Nacional do Ministério Público investigue o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e com a solicitação de indiciamento do jornalista Policarpo Júnior, da revista Veja.

"Esse relatório é errático. A retirada desses dois itens é uma imposição", afirmou o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ). Hoje, a tendência da maioria dos integrantes da CPI é derrubar na totalidade o relatório, que tem mais de cinco mil páginas.

Ciente de que a derrota é inevitável, Odair Cunha tenta negociar um texto de consenso com os demais integrantes da comissão. Daí ele concordar em retirar partes do documento e fazer um relatório que "espelhe o pensamento da CPI".

"Estou ganhando mais prazo para dialogar. É sempre possível fazer aperfeiçoamentos", admitiu o relator. O resumo do relatório deverá ser lido na quarta-feira. A ideia é votar o texto final ainda na primeira semana de dezembro. "Ele ( Cunha) está fazendo um movimento tático para dividir a mobilização contra o seu parecer", observou Teixeira.

Aliados e oposição estão convencidos de que o relatório de Cunha foi fruto de pressão de parte do PT. O relator se reuniu com integrantes da cúpula petista, entre ele José Dirceu, antes de apresentar o texto final na madrugada de terça-feira. O procurador Roberto Gurgel foi o responsável por defender a condenação das principais figuras do PT envolvidas no mensalão.

Além do jornalista da Veja, que fez uma série de matérias contra o PT, Cunha também sugeriu o indiciamento, por formação de quadrilha, de outros quatro jornalistas de Goiás: Wagner Relâmpago, Patrícia Moraes, João Unes e Carlos Antônio Nogueira. Nenhum deles foi convocado para depor na CPI.

Integrantes da base estão convencidos de que Cunha "pesou na mão" em várias partes do relatório. Citam o exemplo da responsabilização criminal do governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo, por seis crimes: formação de quadrilha, corrupção passiva, advocacia administrativa, tráfico de influência, falso testemunho e lavagem de dinheiro. "Ele (Cunha) foi mais duro com o Perillo do que o Joaquim Barbosa com o José Dirceu", brincou um governista.

No relatório final, Cunha livrou o governador do Distrito Federal, o petista Agnelo Queiroz. Havia a suspeita de que seu governo teria favorecido a empreiteira Delta, ligada a Cachoeira, em um milionário contrato para a coleta de lixo na capital do País. O relator diz não ter encontrado elementos para implicar Agnelo no caso.

Outro governador ausente no texto final é o do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB). De acordo com o relatório, Carlinhos Cachoeira mantinha empresas fantasmas que receberam R$ 98 milhões da Delta. A CPI, entretanto, não conseguiu rastrear o destino da maior parte desse dinheiro.

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