Cuba, um fetiche

Aproximação com os cubanos traz à luz o debate entre ideologia e interesse comercial na hora de definir as prioridades externas da política brasileira

Guilherme Russo, O Estado de S. Paulo

31 de agosto de 2014 | 22h00

Apesar de as relações entre Brasil e Cuba terem se intensificado desde 2003 - com a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência - é um erro, na avaliação de especialistas em relações internacionais e diplomatas brasileiros afirmar que essa proximidade decorre apenas da ideologia do Partido dos Trabalhadores. A tradição do Itamaraty, argumentam, sempre foi a de incluir países “fechados” no sistema internacional, pois, no entendimento do organismo, quanto mais isolado fica um regime, mais crítico e reativo ele se torna.

Muitos analistas defendem, no entanto, que, com o PT no poder, a política externa brasileira tem adquirido tons partidários. O professor Guilherme Casarões, do Centro de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, lembrou que, após a Revolução Cubana levar Fidel Castro ao poder, em 1959, o Brasil manteve relações com a ilha e defendeu a permanência de Havana na Organização dos Estados Americanos (OEA) - um desafio às posições dos EUA. “Quando Cuba foi expulsa da OEA, em 1962, o Brasil se opunha, mas se absteve da votação”, observou o analista. Cuba ficou fora da entidade até 2009.

Depois do golpe militar de 1964, o Brasil cortou relações diplomáticas com o governo cubano - que só foram retomadas em junho de 1986, pelo presidente José Sarney. “Desde então, o Brasil vem mantendo uma relação bastante próxima e próspera com aquele país”, disse o professor. Casarões ressaltou que os governos de Fernando Collor e, mais tarde, de Fernando Henrique Cardoso, tiveram “relações importantes” com Havana: “Não se pode atribuir nenhum tipo de amor especial a Cuba por parte dos governos do PT. Há inclinações ideológicas muito claras, mas muito mais no plano retórico do que no plano concreto”, observou.

A opinião é exemplificada pelo recente empréstimo do Brasil a Cuba para modernizar o Porto de Mariel. Foram US$ 682 milhões, mas como a obra foi repassada à construtora Odebrecht, acabou criando no Brasil 156 mil empregos diretos.

Na opinião do embaixador Roberto Abdenur - que atuou em Pequim, Berlim e Washington - a posição do Brasil é “correta” em seu repúdio ao embargo econômico que os EUA impõem a Cuba desde 1962 e também no sentido de “construir pontes” com o governo castrista. “Cuba é parte do nosso espaço cultural comum na história das Américas.”

Mas, para ele, “o Brasil foi longe demais” nos quase 12 anos de governo do PT, pois “tem tido uma política de apoio ao regime cubano sob variadas formas: financiamentos, ajudas, apoio em questões internacionais, mantendo o silêncio sobre violações de direitos humanos e desrespeito à democracia”. “O Brasil não poderia, por si só, mudar o regime, nem lhe cabe isso, mas o Brasil teria tido, digamos, autoridade moral - até pela proximidade de Lula e seus companheiros com o regime - para, de alguma maneira, expressar a importância da evolução democrática de Cuba e de sua plena reinserção no mundo democrático”, afirmou Abdenur.

As polêmicas no contencioso Brasília-Havana incluem ainda a adoção do programa Mais Médicos - que, para contratar 14 mil médicos, foi buscar cerca de 80% deles em Cuba, mas pagando-lhes menos do que o recebido pelos demais contratados. Enquanto estes recebem cerca de R$ 10 mil mensais, os cubanos ganham menos que R$ 3 mil, já que o valor restante fica com o governo cubano.

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