Crise na BA traz de volta sombra do carlismo sobre PT

Pellegrino, candidato do governador Jaques Wagner, sofre revés com greve da polícia e legado de ACM ganha sopro de vida eleitoral

LUCIANA NUNES LEAL , ENVIADA ESPECIAL / SALVADOR, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2012 | 03h01

Na noite da última quinta-feira, décimo dia da greve dos policiais militares baianos, o deputado Nelson Pellegrino, pré-candidato do PT à Prefeitura de Salvador, dava entrevista a uma rádio local e foi cobrado pelos ouvintes, ao vivo, sobre a posição de seu partido na paralisação de 2001.

Um deles disse que o PT "provava do próprio veneno", por ter "insuflado" a mobilização no passado, quando era oposição ao governador César Borges, na época filiado ao PFL (atual DEM) e representante natural da corrente conhecida como 'carlismo', controlada pelo senador Antonio Carlos Magalhães, o ACM, morto em 2007.

"Não incentivamos a greve, entramos para resolver. Há muita contrainformação nesse episódio", respondeu o petista. Horas antes, ele tinha passado pela festa da lavagem das escadarias da igreja de Itapuã. De novo, os efeitos da paralisação dos policiais estavam evidentes. O público da festa popular era bem menor do que nos outros anos.

Nos últimos dias, Pellegrino, ex-secretário de Justiça do governo Jaques Wagner (PT), seguiu de perto a crise deflagrada pela greve. Esteve ao lado do governador, participou de discussões sobre os rumos da reação do governo e sentiu na pele o desgaste do governador com o episódio.

Apesar da divulgação de gravações que mostravam líderes da paralisação combinando atos de violência - o que fortaleceu o discurso de Wagner de que houve ações criminosas no movimento -, a insegurança generalizada e o baixo astral da Bahia em um período que seria de efervescência pré-carnavalesca acabaram creditados na conta do governador.

O episódio antecipou o embate eleitoral, por mais que os pré-candidatos evitem associar a tensão dos últimos dias à sucessão do prefeito João Henrique (PP). "Minha última preocupação foi com a candidatura", disse Pellegrino no rádio. "Não vou tirar proveito político de um episódio tão lamentável", afirmou o deputado ACM Neto, pré-candidato do DEM à prefeitura, em possível aliança com o PSDB.

ACM Neto, no entanto, não deixa de responsabilizar o governador. "Ele subestimou o movimento, demorou a reagir", critica. Se eleito, ACM Neto trará de volta o carlismo, como ficou conhecido o período de domínio político de seu avô, marcado por políticas mais rigorosas na área da segurança pública.

Já a eleição de Pellegrino levaria pela primeira vez o PT à prefeitura de Salvador e consolidaria uma aliança de petistas no comando, ao lado de Wagner e da presidente Dilma Rousseff. A segurança pública é um dos pontos fracos do governo Wagner. E a crise com a PM às vésperas do carnaval agravou o desgaste do governador, que está no segundo mandado. Antes mesmo da greve, o aumento da criminalidade no Estado já era motivo de cobranças da oposição.

Pesquisa do Instituto Singari divulgada no final de 2011 mostrou que o total de homicídios em Salvador saltou de 315 em 2000 para 1.484 em 2010. Na região metropolitana, o índice foi de 12,9 por cem mil habitantes em 2000 - o 25.ª maior entre as capitais - para 55,5 por cem mil em 2010 - a sétima pior taxa. Em 2009, bateu em 67 por cem mil habitantes.

Oposição. No episódio da recente greve, o PSDB baiano foi cauteloso. O pré-candidato do partido à prefeitura, Antonio Imbassahy, que já foi prefeito de Salvador, e o deputado Jutahy Junior disseram que os fatos são graves e seria "desrespeitosa" a sua politização. Outra explicação para a discrição tucana é que o principal líder do movimento, o ex-policial Marco Prisco, é do PSDB. Para alívio do tucanato, ele disse que deixará o partido.

Prisco também esteve à frente da greve de 2001, quando Pellegrino e Jaques Wagner, então deputado, aproximaram-se do líder dos policiais. Em 2006, Prisco participou da campanha vitoriosa de Wagner ao governo. O petista chegou a exibir um contracheque do policial na TV, ao defender reajustes substanciais para a categoria. A amizade, no entanto, não foi adiante. Em 2010, lá estava Prisco no programa de TV do então candidato ao governo Geddel Vieira Lima, do PMDB, ex-aliado e hoje adversário de Wagner.

"Minha campanha foi procurada por ele, foi para a TV, disse que o governador não tinha honrado o compromisso", lembra Geddel, outro adversário que não poupa Wagner. "Ninguém pode usar um episódio traumático como esse oportunisticamente. Mas a sociedade percebe a fragilidade do governador", disse Geddel, hoje aliado do peemedebista Mário Kertész. Geddel também pode apoiar Alice Portugal, do PC do B. O prefeito João Henrique está entre a candidatura de João Leão e o apoio a Pellegrino.

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