'Crise afeta todo o projeto de governo do partido'

Para cientista político, situação, agora, é pior do que a de 2005, quando petistas enfrentaram as denúncias do mensalão

Entrevista com

ROLDÃO ARRUDA, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2013 | 02h12

Na avaliação do cientista político Ricardo Antunes, a crise enfrentada atualmente pelo PT é mais ampla e mais profunda que a de 2005, ano em que o escândalo do mensalão atingiu o seu auge. Enquanto naquele ano o PT se viu às voltas com problemas que afetavam sobretudo a cúpula partidária, agora se vê às voltas com a erosão de seu projeto político de governo.

Pesquisas indicam que a crise levou o PT a perder apoio em seu reduto mais sólido, a periferia de São Paulo. Como vê isso?

O PT deixou de ser um partido distinto. Hoje é visto pela grande massa de eleitores, das classes médias ao setores de periferia, como um partido tradicional. É quase um PMDB dos anos 80, um partido que se dilui numa frente, se decompõe e desmorona, à medida que, para ficar no poder, faz concessões de toda ordem.

Como isso afeta a periferia?

Afeta porque é a periferia que mais sofre com a destruição dos serviços públicos no País, é ela que percebe melhor como isso ocorre e como o PT tem sido conivente. Todas essas manifestações de rua, desde o início de junho, não eram diretamente contra a presidente Dilma Rousseff, o governador Geraldo Alckmin e o prefeito Fernando Haddad, mas também eram contra a Dilma, o Alckmin e o Haddad. O que se viu foi um não generalizado, o fim daquele período letárgico em que caminhávamos para ser a quinta potência do mundo, o país onde tudo dava certo, no qual se criou o grotesco mito da nova classe média, como se fosse possível criar uma classe de um dia para o outro. Tudo isso começou a ruir e ataca mais duramente o PT onde ele tinha mais força: na periferia.

Isso já ocorreu antes?

Isso me lembra o que ocorreu nos primeiros anos do governo Lula, quando houve uma erosão do apoio ao PT no setor do funcionalismo público, com privatização de serviços, taxação dos aposentados. Só uma parte disso foi recuperada no segundo governo Lula. Agora vemos o estreitamento de sua base na periferia.

Que comparação faria entre a crise atual do PT e a que enfrentou em 2005?

São crises distintas. O mensalão atingiu a alta cúpula do partido e o alto escalão do governo federal. Expôs como o PT, para governar o País, fazia aquilo que todos os outros partidos sempre fizeram, comprando a direita ao preço que ela exigia. A crise atual é de outra dimensão, transcende o PT, confronta o sistema político e a forma como o governo é realizado. Se fosse outro partido que estivesse à frente do governo, a crise talvez tivesse a mesma dimensão.

Especificamente quanto ao PT, o que altera?

A crise afeta duramente todo o projeto de governo do PT. Até duas semanas atrás os petistas imaginavam que a sucessão estava garantida com a Dilma e que ainda contavam, numa emergência, com um plano B.

Não acha conjunturais e reversíveis a queda de popularidade de Dilma e do apoio ao PT?

Ainda que tenha um traço conjuntural, não é apenas um sopro. Pode ser revertido? Pode. Mas também pode ser irreversível. Observo que cada manifestação da presidente Dilma tende a gerar mais descontentamento. Ela vive um processo de descompasso e destempero, típico de situações de crise, quando tudo que é sólido começa a evaporar.

O PT ainda tem apoio de parte considerável do eleitorado.

O único setor do eleitorado no qual o PT não perdeu ainda o sólido apoio que tem, garantindo 30% das intenções de voto para a Dilma, foi o setor que depende estritamente do Bolsa Família e que não é pequeno. São milhões de pessoas, situadas na periferia da periferia, na periferia mais atrasada. Quando esse eleitor analisa as alternativas que lhe oferecem, não pensa duas vezes entre ficar com Dilma e pular para Aécio Neves, do PSDB. Sabe que o risco de sair perdendo é muito maior, uma vez que a insensibilidade social é um traço político que marca o PSDB.

Como vê as divergências internas no PT sobre as saídas para a crise política?

As rebeliões de junho e suas manutenções multiformes em julho resultaram numa crise política profunda, na qual ficou claro que nem os partidos nem o governo representam os manifestantes. O parlamento, que se tornou oligarquizado, enrijecido e enfeudado, é a instituição que menos os representa. Como é que se muda isso? O governo faz propostas. O PT é parte decisiva no processo, mas ele não está mais sozinho. Tem o PMDB e os outros partidos que precisam ser considerados. Na hora em que aumenta a temperatura da panela de pressão, começam as divisões intragoverno, intrapartidos dentro do governo e também nas oposições. É nesse contexto que ganham espaço os descontentes dentro do PT e os que sonham com a volta do Lula. O PT sempre foi um partido cindido. Os grandes debates sempre eram resolvidos por seu tertius, seu chefe, o Lula, que costurava e defendia a posição que acabava sendo aceita. No momento atual, mesmo a relação entre a Dilma e o Lula deve ter tido momentos de dificuldade.

A queda do PT não resultou em crescimento do PSDB. Só Marina Silva ganhou. Como vê isso?

Era natural que a Marina levasse algo disso, porque ela é a única vista nesse cenário, com razão ou não, como oposição que saiu de dentro do PT, após uma forte discussão. O fato de não ter criado um partido também lhe favorece.

Vê possibilidade de o PT se reinventar na crise?

Não. Nem a mais remota.

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