Crimes de Guerra e o pedalinho do Rio

Criador de passeio em lagoa foi acusado por israelitas

O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2013 | 02h05

Uma das mais tradicionais formas de lazer de cariocas e turistas que visitam o Rio de Janeiro, o passeio de pedalinhos pela Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul da capital fluminense, foi criado por um suposto criminoso de guerra nazista e fugitivo da Justiça aliada, o letão Herberts Cukurs.

Vivendo desde 1946 no País, onde entrou legalmente e com nome verdadeiro, Cukurs foi acusado de ter sido membro do Estado-Maior da Perkonkurst (partido da cruz gamada da Letônia) e SS Obersturmführer (comandante de tropas de choque nazistas) atuante no gueto de Riga, na Letônia, do qual teria sido superintendente.

Ele sempre jurou inocência, mas em 1965 foi morto a tiros em Montevidéu. Seu corpo foi abandonado em um baú, com um bilhete assinado por "aqueles que não esquecem" - a ação foi atribuída ao Mossad, o serviço secreto de Israel.

A trajetória de Cukurs no Brasil é objeto de pesquisa de doutorado do historiador Bruno Leal Pastor de Carvalho, do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O suposto nazista chegou ao Brasil em 4 de março de 1946, a bordo do navio Cabo de Buena Esperanza, vindo de Marselha, portando salvo-conduto francês e com visto emitido pelo consulado brasileiro em Marselha.

No então Distrito Federal, obteve prestígio por organizar e explorar o serviço de "bicicletas aquáticas" na Lagoa. Até que, em 30 de junho de 1950, foi acusado, em entrevista coletiva, pela Federação das Sociedades Israelitas do Rio de Janeiro, de ter cometido crimes de guerra durante a ocupação alemã da Letônia.

No debate que se seguiu às acusações, houve até um julgamento simulado (o letão foi condenado) e depredação da sede do serviço de pedalinhos. A polêmica envolveu o Ministério da Justiça (que abriu uma investigação inconclusiva), o Congresso e dois presidentes, Eurico Dutra e Getúlio Vargas, que receberam pedidos de expulsão do letão. "Cukurs admitiu ter sido um colaborador dos nazistas e ter integrado a SS (...) Era anticomunista e achava o comunismo pior que o nazismo, mas sempre negou crimes de guerra", diz Leal. / W. T.

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