CPI terá acesso a dados de investigações da PF

PT teve de segurar sua própria base para barrar convocação de Roberto Gurgel, procurador-geral, proposta por Collor (PTB)

EUGÊNIA LOPES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2012 | 03h06

Na primeira sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cachoeira ontem, o líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto, teve de agir para brecar a aprovação de uma enxurrada de requerimentos da oposição e evitar que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, se transformasse em um dos alvos,

Ainda assim, os oposicionistas obtiveram uma vitória: a CPI terá acesso à íntegra dos documentos das operações Vegas e Monte Carlo (ambas da Política Federal) e base da prisão de Carlinhos Cachoeira, o que deverá embasar um série de pedidos de quebra de sigilos bancário e fiscal de suspeitos.

O momento mais tenso foi protagonizado pelo senador e ex-presidente Fernando Collor (PTB-AL), da base de apoio do Planalto, que chegou a investir pela convocação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Parte da base e do PT avalia que ele foi lento no encaminhamento da Monte Carlo, iniciada ainda em 2009. Porém o Planalto receia em transformar Gurgel alvo da comissão.

Os demais pedidos foram desde a convocação do subchefe de Assuntos Federativos da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, Olavo Noleto, até uma acareação entre o ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) Luiz Antonio Pagot e Cachoeira.

Sem a presença da tropa de elite do PMDB, o líder do PT na Câmara, deputado Jilmar Tatto (SP), ficou sozinho para blindar o governo e teve de agir rápido para impedir a convocação de Gurgel. "A CPI precisa dar um prazo para o relator fazer um plano de trabalho", disse Tatto, que sequer participa da comissão.

Ao sair em socorro do recém-nomeado relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT-MG), o líder petista tentou evitar o debate em torno dos requerimentos apresentados pela oposição. Diante da tática do PT, a CPI aprovou ontem apenas requerimentos solicitando a íntegra dos documentos das operações Vegas e Monte Carlo, ambas da Polícia Federal. As duas operações resultaram na prisão de Cachoeira e na abertura de processo no Senado para a cassação do mandato de Demóstenes Torres (sem partido-GO), envolvido com o contraventor. De posse dos documentos, a comissão vai requerer quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico dos envolvidos.

Com o controle praticamente absoluto da CPI nas mãos de aliados, o PT também deixou evidente que tentará não dar espaço para a oposição nas investigações. Integrante da comissão, o deputado Paulo Teixeira (PT-SP) mostrou que será o braço direito de Odair Cunha, ao afastar logo a possibilidade de criação de sub-relatorias na CPI. "Não devemos encaminhar para a sub-relatoria. Isso é esvaziar o relator. Não é o momento de discutir sub-relatores", afirmou Teixeira.

A próxima reunião da CPI do Cachoeira será no dia 2. O presidente da Comissão, Vital do Rego (PMDB-PB), pretende até lá reunir-se com o procurador Roberto Gurgel e os dois delegados encarregados das operações Vegas e Monte Carlo e convidá-los para fazerem depoimentos.

Collor. Vinte anos depois de sofrer um processo de impeachment e ser afastado da presidência da República com base em investigações feitas pela CPI do PC Farias, o senador Fernando Collor (PTB-AL) fez ontem, em grande estilo, sua estreia na CPI do Cachoeira.

Collor, depois, subiu à tribuna do Senado para chamar os jornalistas de "rabiscadores" e garantir que ficará atento para impedir o vazamento de documentos sigilosos sobre as ações. "Com o apoio da coordenação dos trabalhos, estarei atento para que não haja vazamento de informações sigilosas e protegidas pela nossa Lei Maior", disse.

Em 1992, a CPI do PC Farias distribuiu à imprensa cópias de cheques do esquema de corrupção pagos a Ana Accioly, então secretária de Collor. As investigações também revelaram o pagamento de um Fiat Elba.

No ataque, Collor advertiu que tentará "evitar que certos meios se prestem a agir como simples dutos condutores de notícias falsas ou manipuladamente distorcidas. E mais, que se utilizem de ações e métodos desonestos (...) para escamotear a realidade dos fatos e burlar a lei".

O ex-presidente dedicou à imprensa palavras duras. Segundo ele, "não é admissível, num País de livre acesso às informações e num governo que preza pela transparência pública, aceitar que alguns confrades, sob o argumento muitas vezes falacioso do sigilo da fonte, se utilizem de informantes com os mais rasteiros métodos, visando o furo de reportagem e, sobretudo, propiciar a obtenção de lucros".

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