CPI tenta encontrar rumo após cassação

Marcada por ação de claques e acordos, comissão quer agora convocar deputados

EUGÊNIA LOPES / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2012 | 03h04

Integrantes da CPI do Cachoeira lutam contra o esvaziamento da comissão após a cassação do mandato de Demóstenes Torres (ex-DEM, sem partido-GO), vista por parte dos parlamentares como reação já suficiente do Congresso diante dos escândalos envolvendo o contraventor. A aposta é tentar dar fôlego à investigação após o recesso, convocando os deputados federais que mantiveram alguma relação com Cachoeira.

A CPI já conta com uma lista de cerca de uma dezena de convocações polêmicas aprovadas, entre elas a de Fernando Cavendish, dono da Delta Construções, apontada como "usuária" dos serviços de Cachoeira para obter contratos públicos, e do ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) Luiz Antonio Pagot, que já deu declarações que atingem tanto petistas quanto tucanos. As aprovações ocorreram, porém, só após acordo que permite dispensar as testemunhas caso elas consigam habeas corpus para não precisar responder a questões dos parlamentares. Daí a aposta nos deputados.

Poupados até agora pelas investigações da comissão de inquérito, os deputados Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO), Sandes Júnior (PP-GO), Rubens Otoni (PT-GO) e Stepan Nercessian (PPS-RJ) deverão explicar seu envolvimento com o contraventor. Por enquanto, apenas Leréia está com a cabeça a prêmio e poderá tornar-se alvo de investigação por falta de decoro parlamentar no Conselho de Ética da Câmara. Sandes Júnior e Otoni foram liberados pela Corregedoria da Casa, que determinou o arquivamento das denúncias contra ambos. Nercessian, que admitiu ter recebido R$ 175 mil de Cachoeira em 2011, ainda não teve seu caso analisado pela Câmara.

"O Senado cortou na própria carne. A CPI tem sua responsabilidade aumentada. Por que a CPI não haverá de aprofundar as investigações dos envolvidos?", diz o líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR). "Aqui não se está passando a mão na cabeça de ninguém. Se aparecer alguém recebendo propina do Cachoeira, não tenho dúvidas de que será afastado", diz o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ). "Não acho que Demóstenes será bode expiatório da organização do Cachoeira", afirma o relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT-MG).

A CPI do Cachoeira começou a cair em descrédito mesmo antes do acordo que dispensa testemunhas que não querem falar. Os depoimentos dos governadores do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), e de Goiás, Marconi Perillo, foram marcados mais pela atuação das claques de apoio do que pela dureza das perguntas dos parlamentares.

Suplente. Enquanto a convocação dos deputados federais envolvidos com Cachoeira é considerada inevitável, o mesmo não ocorre com o recém-empossado Wilder Morais (DEM-GO), suplente de Demóstenes. O relator Odair Cunha afirma que "não é o caso" de chamar o futuro senador para depor. "Ele (Wilder) só vai à CPI se quiser. Acho desnecessária a ida dele", diz. Para Álvaro Dias, Wilder "tem de ser ou não convocado se houver indícios de participação do esquema de Carlinhos Cachoeira".

Além do recesso, que começa em 18 de julho e vai até o fim do mês, os integrantes da CPI terão de lidar também com o início das campanhas municipais. A eleição já proporcionou pelo menos três baixas nos quadros da comissão: o senador Humberto Costa (PT-PE), que disputará a Prefeitura do Recife; a senadora Vanessa Graziotin (PC do B-AM), que concorre à Prefeitura de Manaus, e o senador Wellington Dias (PT-PI), que se lançou na luta pela Prefeitura de Teresina.

O líder do PPS na Câmara, Rubens Bueno (PR), é candidato a vice-prefeito em Curitiba, mas diz que não pretende deixar a CPI. Há ainda casos como o do senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), que desistiu de participar da CPI, e o do deputado Fernando Francischini (PSDB-PR), que está mais preocupado em fundar o Partido Ecológico Nacional (PEN) - por causa disso, decidiu se desligar da comissão. Soma-se a isso o fato de até hoje, quase três meses após o início da investigação parlamentar, o PMDB do Senado não ter indicado quatro suplentes para a CPI.

O relator Odair Cunha afirma, porém, que os trabalhos "avançaram muito". Ele diz que o principal feito da comissão foi a quebra de sigilos bancário e fiscal de empresas envolvidas com Cachoeira. "A Polícia Federal quebrou o sigilo de cerca de dez empresas; a CPI já quebrou o sigilo de umas 50." Segundo ele, o trabalho agora é fazer o cruzamento desses dados e descobrir mais ligações do esquema de Cachoeira com políticos e empresários.

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